Tóquio, Japão – O ataque militar de grande escala realizado pelos Estados Unidos contra a Venezuela no sábado (3) colocou o Japão diante de um delicado dilema diplomático e também reacendeu o debate interno sobre coerência na defesa do direito internacional, segundo a agência Kyodo.
Enquanto a primeira-ministra Sanae Takaichi avalia cuidadosamente como se posicionar, o ex-governador de Osaka e advogado Toru Hashimoto fez duras críticas à postura de políticos e especialistas japoneses que evitam condenar o presidente americano Donald Trump.
O governo japonês enfrenta a difícil decisão de apoiar ou não a ofensiva americana, que envolve a detenção do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Há suspeitas de violação do direito internacional, mas uma condenação direta poderia prejudicar a aliança Japão–Estados Unidos, pilar central da política externa japonesa. Por isso, Tóquio pretende observar atentamente a reação dos demais países do G7 antes de anunciar uma posição oficial.
Como medida imediata, o governo instalou no sábado uma sala de coordenação no Ministério das Relações Exteriores, com o objetivo de garantir a segurança de cidadãos japoneses no exterior.
Em janeiro do ano passado, os chanceleres do G7, incluindo o Japão, já haviam classificado Maduro como um líder que “carece de legitimidade democrática”.
Ainda assim, integrantes do governo japonês demonstram preocupação de que endossar uma ação militar unilateral possa enviar uma mensagem equivocada à comunidade internacional, especialmente a países como a Rússia, que mantém a invasão da Ucrânia, e a China, que amplia sua presença no Mar do Leste e no Mar do Sul da China, sugerindo que o desrespeito ao direito internacional seria tolerável.
Desde que assumiu o cargo, a primeira-ministra Takaichi tem se esforçado para construir uma relação de confiança pessoal com Trump. Em conversa telefônica na sexta-feira (2), ela chegou a manifestar respeito aos esforços diplomáticos do presidente americano em temas como a Ucrânia e o Oriente Médio, sinalizando proximidade política.
Esse contexto motivou críticas contundentes de Toru Hashimoto, que se manifestou na rede social X (antigo Twitter). Ao comentar notícias sobre o ataque dos EUA à Venezuela, Hashimoto afirmou que, se Trump não puder ser criticado, então o presidente russo Vladimir Putin também não deveria ser. Ele questionou como reagirão os políticos e especialistas japoneses que condenaram duramente a Rússia pela invasão da Ucrânia, mas evitam criticar Washington.
Para Hashimoto, o episódio evidencia que o debate não estaria sendo guiado pela ordem internacional baseada no direito, mas sim por acordos políticos e conveniências estratégicas. Ao comparar a postura do Japão diante da Rússia e agora dos Estados Unidos, o ex-governador indicou que o país vive um momento decisivo quanto à consistência de seus princípios diplomáticos.
Em coletiva de imprensa, Trump justificou o ataque e a detenção de Maduro, afirmando que os EUA irão administrar a Venezuela até que ocorra uma “transição segura e adequada de poder”, indicando a intenção de manter influência direta sobre o país. A postura americana tem gerado reações divididas na comunidade internacional, com manifestações tanto de apoio quanto de crítica.
Diante desse cenário, o Japão se vê pressionado a encontrar um equilíbrio delicado entre a defesa do Estado de Direito internacional e a manutenção da aliança estratégica com os Estados Unidos.




