Tóquio, Japão – O aumento contínuo da presença de estrangeiros residentes no Japão já provoca impactos perceptíveis – positivos e negativos – nas comunidades locais. É o que mostra uma pesquisa nacional realizada pelo jornal Sankei com prefeitos de mais de 1.400 municípios, incluindo os 23 distritos de Tóquio.
Segundo o levantamento, divulgado nesta sexta-feira (2), 70% dos entrevistados afirmam que o crescimento do número de estrangeiros já gera algum tipo de impacto em suas regiões.
Entre esses municípios, 76% avaliam que os efeitos são tanto positivos quanto negativos. Ainda assim, mais da metade dos líderes locais — 54% — considera que os estrangeiros são “indispensáveis” para a sustentação da região, sobretudo para garantir mão de obra diante do envelhecimento da população e da escassez de trabalhadores.
A pesquisa foi realizada entre novembro e dezembro de 2025 e analisada por meio do sistema da Sankei Research & Data. Questionários foram enviados a todos os municípios do país, e 1.433 cidades, vilas e distritos responderam, resultando em uma taxa de resposta de 82,3%.
O levantamento abordou temas como os impactos da presença de estrangeiros, políticas adotadas pelos municípios e os desafios enfrentados no cotidiano das comunidades.
Benefícios: mão de obra e economia local
Entre os impactos positivos, o mais citado foi a redução da escassez de trabalhadores, apontada por 845 municípios. Em seguida, 578 municípios destacaram a dinamização da economia local, especialmente por meio do turismo e do consumo.
Os dados indicam que muitos gestores enxergam os estrangeiros como elemento essencial para a manutenção da atividade econômica e dos serviços locais, em um contexto de declínio populacional acelerado.
Desafios: choque cultural e educação
Por outro lado, os impactos negativos também são significativos. O problema mais mencionado foi o choque cultural e de costumes, citado por 515 municípios. Em seguida, 350 municípios apontaram dificuldades no ambiente educacional, como o atendimento a crianças estrangeiras que não falam japonês.
Esses desafios evidenciam a pressão crescente sobre escolas, serviços públicos e a convivência comunitária, especialmente em regiões que não estavam historicamente acostumadas à diversidade cultural.
Sobre as políticas adotadas, muitos municípios afirmaram priorizar medidas de convivência, como atendimento multilíngue e apoio ao ensino da língua japonesa. No entanto, grande parte relatou falta de recursos financeiros e humanos, além de cobrar diretrizes mais claras e apoio do governo central para lidar com a questão.
Especialista defende política de “integração”
Para a professora Midori Okabe, especialista em políticas migratórias da Universidade Sophia, os resultados da pesquisa mostram que o Japão tem lidado com a imigração de forma pontual e sem uma estratégia consistente.
Segundo ela, problemas como descarte irregular de lixo, inadimplência de impostos e dificuldades nas escolas não podem ser atribuídos apenas a diferenças culturais, mas sim à ausência de um sistema nacional de integração. “É urgente definir que tipo de sociedade o Japão quer construir, que estrangeiros deseja receber e sob quais condições”, afirma.
A professora também alerta para experiências negativas na Europa, onde a falta de avaliação dos efeitos da imigração gerou divisões sociais. Para evitar esse cenário, defende uma estratégia que valorize os atrativos do Japão, como segurança e organização, incentivando os estrangeiros a compreender que seguir regras e costumes locais traz benefícios concretos.
O levantamento faz parte de uma série de análises do jornal Sankei sobre temas que desafiam o Japão, como imigração, segurança regional e competição tecnológica. A proposta é discutir, ao longo do ano, se é possível construir uma “convivência ordenada” com estrangeiros, preservando as características da sociedade japonesa ao mesmo tempo em que se enfrenta a crise demográfica e de mão de obra.




