Tóquio, Japão – Às vésperas da eleição para escolher o novo líder do Partido Liberal Democrata (PLD) e, provavelmente, o próximo primeiro-ministro do Japão, os candidatos intensificam o discurso em torno da chamada “política para estrangeiros”.
Entre as propostas, destacam-se medidas de endurecimento contra imigrantes em situação irregular. Os candidatos também citam restrições à compra de imóveis por estrangeiros e críticas ao impacto deles na segurança pública.
Em entrevista ao Tokyo Shimbun, o professor Shunsuke Tanabe (foto abaixo), especialista em política migratória da Universidade Waseda, alerta que esse tipo de discurso mascara problemas internos do próprio país. “Culpar estrangeiros é uma forma dos políticos se esquivarem de responsabilidade”, afirma.

Propostas baseadas em premissas equivocadas
Entre os candidatos, Toshimitsu Motegi defende “zerar estrangeiros ilegais” e cita os curdos de Kawaguchi (Saitama). Sanae Takaichi chegou a acusar estrangeiros de maltratarem cervos do Parque de Nara. Além disso, Takayuki Kobayashi pede limites à compra de imóveis por não japoneses.
Para Tanabe, tais discursos ignoram dados concretos. De fato, os crimes previstos no Código Penal têm diminuído no Japão e não há evidências de que estrangeiros estejam ligados ao aumento da criminalidade. Além disso, a valorização de imóveis tem relação direta com falhas em políticas habitacionais e má gestão fundiária.
“Esses problemas decorrem da omissão e dos erros dos próprios políticos. Ao responsabilizar estrangeiros, eles desviam a atenção dos eleitores”, critica.
Postura oportunista do Japão
Segundo o professor, o Japão mantém uma política contraditória. Oficialmente, rejeita imigrantes e adota postura fria em relação a refugiados. Ao mesmo tempo, permite a entrada de estudantes estrangeiros e descendentes de japoneses vindos do Brasil, Peru e outros países, principalmente para suprir a escassez de mão de obra.
“É uma abordagem oportunista. O país se beneficia do trabalho dos estrangeiros, mas não investe em integração nem garante seus direitos”, aponta. Ele lembra que estagiários – como vietnamitas e outros asiátios – enfrentam violações de direitos humanos e que muitas crianças abandonam a escola porque a instabilidade econômica afeta os pais.
Proposta: Ministério da Imigração
Na reportagem do Tokyo Shimbun, Tanabe defende a criação de um Ministério da Imigração, não apenas como órgão de controle, mas como responsável por políticas inclusivas.
Segundo ele, setores como agricultura e comércio 24 horas já dependem fortemente da mão de obra estrangeira. No entanto, os aspectos positivos da presença desses trabalhadores recebem pouca atenção, ao contrário das notícias negativas.
O professor sugere ainda que parte dos impostos arrecadados de empresas que lucram com mão de obra estrangeira seja destinada a programas de integração. Isso incluiria apoio educacional e medidas para lidar com o turismo em massa.
Riscos de vigilância em massa
Outra preocupação é a proposta de uma “lei de prevenção de espionagem”, que poderia aumentar a vigilância sobre estrangeiros e até mesmo sobre cidadãos japoneses comuns.
“Antes de exigir transparência dos estrangeiros, os próprios políticos deveriam limpar sua conduta. Por exemplo, o escândalo dos fundos ocultos dentro do PLD sequer foi devidamente esclarecido”, critica Tanabe.
Ele acrescenta: “Antes de falar em ‘zerar estrangeiros ilegais’, talvez fosse melhor primeiro ‘zerar parlamentares ilegais’”.
Caminho para a autodestruição
Tanabe reforça que o Japão não deve adotar políticas de rejeição irrestrita, mas considerar também os impactos positivos da imigração. Ele cita como exemplo os Estados Unidos, que sob o governo do presidente Donald Trump endureceram o discurso contra imigrantes e, como consequência, perderam profissionais altamente qualificados.
“O Japão ainda tem imagem positiva no exterior pela segurança pública e pela ausência de partidos xenófobos fortes. Mas, se fechar as portas e adotar políticas de exclusão, perderá a chance de atrair talentos e caminhará para a autodestruição”, alerta.




