Tóquio, Japão – A 27ª eleição para a Câmara Alta do Parlamento japonês (equivalente ao Senado no Brasil) acontece neste domingo (20), com a contagem dos votos a partir das 20h.
Segundo a agência Reuters, pesquisas recentes indicam que a coalizão governista corre o risco de não alcançar a maioria, somando os assentos em disputa com os que não estão em renovação. Em meio ao descontentamento popular causado pela persistente alta de preços e pelo escândalo financeiro envolvendo o PLD (Partido Liberal Democrata), o governo liderado pelo premiê Shigeru Ishiba enfrenta fortes ventos contrários.
Outro ponto de atenção é o desempenho do partido conservador de direita Sanseito, que pode conquistar mais espaço como alternativa entre os eleitores conservadores.
Caso a coalizão governista perca a maioria, a pressão pela renúncia de Ishiba será inevitável, podendo impactar diretamente as negociações tarifárias com os Estados Unidos.
Disputa por 125 cadeiras
Estão em jogo 125 das 248 cadeiras da Câmara Alta — sendo 124 em renovação regular e uma vaga extra na circunscrição de Tóquio. Um total de 522 candidatos disputa as vagas, sendo 350 nas eleições distritais e 172 na votação proporcional.
Segundo o Ministério de Assuntos Internos, até sexta-feira (18), cerca de 21,45 milhões de eleitores (20,58% do eleitorado) já haviam votado antecipadamente — superando o total de votos antecipados da eleição anterior, em 2022.
Coalizão governista corre risco de derrota
Desde a derrota nas eleições gerais de outubro do ano passado, os partidos PLD e Komeito já atuam como minoria na Câmara Baixa. Para manter a maioria na Câmara Alta, a coalizão precisa conquistar 50 cadeiras nesta eleição.
No entanto, uma pesquisa do jornal Yomiuri, realizada entre os dias 12 e 15 de julho, aponta que o PLD está em vantagem em apenas 4 dos 32 distritos eleitorais com apenas um representante, número que caiu em relação ao levantamento anterior. As projeções indicam que o PLD deve conquistar entre 24 e 39 cadeiras, e o Komeito entre 7 e 13 — cenário que torna difícil alcançar os 50 assentos necessários.
Outros veículos, como o Asahi Shimbun e a Kyodo News, também consideram a manutenção da maioria “difícil” ou “incerta”.
Cenários possíveis e especulações sobre o futuro político
Até o início de julho, a expectativa dentro do governo era de que Ishiba conseguiria manter a maioria, mesmo que por margem estreita, e que, em caso de leve derrota, ele poderia seguir no cargo negociando uma coalizão com a oposição.
Entre os possíveis aliados mencionados nos bastidores, membros do Ministério das Finanças e da ala fiscalmente conservadora do PLD preferem uma aliança com o Partido Democrático Constitucional; já figuras ligadas aos governos Abe e Suga, assim como o Ministério da Economia, veem com bons olhos uma coalizão com o Partido Democrático para o Povo ou o Nippon Ishin no Kai.
No entanto, os dados mais recentes sugerem que a coalizão pode conquistar menos de 45 cadeiras, o que alimenta pressões internas para que Ishiba renuncie, segundo fontes do governo.
Um membro do Ministério das Finanças resumiu a situação: “Se perdermos a maioria, não há nenhuma garantia de que o atual presidente do partido será reconduzido ao cargo de primeiro-ministro. Seria um caos sem precedentes.”
Ascensão da direita conservadora
O desempenho do Sanseito, partido fundado em 2020 com o slogan “japonês em primeiro lugar”, também está sendo observado com atenção. Pesquisas sugerem que o partido pode conquistar entre 10 e 15 cadeiras, sinalizando a consolidação de um movimento populista de direita no Japão, semelhante ao que ocorreu nos EUA e na Europa.
O crescimento do partido, que colocou a política de imigração e o número de estrangeiros no país como temas centrais, forçou outros partidos — inclusive o PLD — a abordar essas pautas na campanha.
“Se o PLD pender demais para a direita, pode perder apoio do eleitorado de centro. Mas, se ignorar os conservadores, enfrentará outro problema. É uma linha tênue muito difícil de equilibrar”, disse o pesquisador político Tsuneo Watanabe, da Fundação Sasakawa.
Como funciona a eleição parlamentar no Japão?
O Parlamento japonês (chamado Kokkai/国会) é formado por duas casas: a Câmara Baixa (Shuugiin/衆議院) e a Câmara Alta (Sangiin/参議院). A Câmara Baixa tem mais poder político, mas a Câmara Alta também é importante para aprovar leis e equilibrar o governo.
As eleições para a Câmara Alta ocorrem a cada três anos, e metade das 248 cadeiras é renovada por vez. Os mandatos duram seis anos. Nesta eleição, os eleitores escolhem representantes em dois formatos:
- Voto distrital – cada província elege um ou mais parlamentares
- Voto proporcional – o eleitor escolhe um partido, e as cadeiras são distribuídas conforme a votação nacional
Para formar maioria na Câmara Alta, um partido ou coalizão precisa de pelo menos 125 cadeiras. A eleição pode influenciar diretamente a estabilidade do governo, especialmente se o partido do primeiro-ministro perder o controle do Parlamento.





