Tóquio – Ainda que seja considerado um sistema de transporte prático e cumpra eficientemente sua função, os trens no Japão ganharam outra conotação para um grupo de japoneses. São entusiastas do sistema ferroviário, que mostram sua verdadeira paixão pelas composições adquirindo livros, vídeos, tirando fotografias. O problema é que estão começando a causar confusão.
O sistema ferroviário do Japão pode ser considerado como modelo em todo o mundo, com sua famosa pontualidade, tecnologia de ponta e cumprimento de horários. Para quem precisa ir a um compromisso ou para o trabalho, tudo isso basta. Mas não para os entusiastas, publicou a France Presse.
Os fãs de trens chegam a grudar nas tabelas de horários e há até os que gravam o som ritmado das rodas nos trilhos. Essa legião acabou ganhando o apelido de toritetsu (fotógrafos de trem), que entram nas plataformas para garantir as melhores imagens.
Essa prática existe há décadas, com adeptos comportando-se devidamente. Porém, nos últimos anos alguns têm ultrapassado os limites, com gritos, invasões e até violência nas estações, transformando os antes inocentes toritetsu em “bad boys” dos trens japoneses.
E os envolvidos não parecem estar para brincadeira, sendo que no ano passado um adolescente com o crânio fraturado.
Fotógrafos antigos, como Masao Oda, que registra imagens de trens há 50 anos, disse que o comportamento dos colegas mais novos piorou.
Akira Takahashi, 27, é um toritetsu, mas do grupo dos tranquilos. “As pessoas agora apontam o dedo para mim”, lamenta ele, que não pode ver uma locomotiva elétrica EF66, que começa a fotografar loucamente.
Mas graças aos desvios de outros toritetsu, ele diz: “A imagem negativa de nós agora prevalece… Não quero ser agrupado com alguns que estão causando problemas.”
Outro que é sereno é Ryunosuke Takagai, de apenas 19 anos, um estudante universitário que chega a acordar às 5h para registrar tudo que diga respeito aos trens. “O momento em que você consegue capturar o trem pelo qual passou horas esperando é realmente gratificante.”
O problema é que em busca da foto perfeita alguns toritetsu têm ultrapassado os limites, tornando-se barulhentos. São fotógrafos amadores que se espremem em espaços pequenos, tornando o que deveria ser um prazer, um tormento.
O jornalista Jun Umehara, especialista no tema ferrovias do Japão, explica um pouco esse exagero dos toritetsu: “Todo trem tem seu último momento, que, para eles, é a última peça que falta no quebra-cabeça de que precisam para completar sua coleção de fotos. A ideia de perder aquela peça final é quase insuportável para eles. Daí o desespero.”
Os toritetsu se sentem estimulados a tirar as fotos publicadas em revistas especializadas, onde as imagens são tratadas e que resultam em imagens mais claras, sem obstáculos como cercas, árvores ou mesmo passageiros.
Umehara afirma que os toritetsu hoje tentam imitar essas fotos, o que para ele soa impossível. “Mas é isso que eles estão procurando.”
Nesse universo não há apenas os toritetsu, que também gostam de passear de trem. Há ainda os ekiben bentos – refeições vendidas nas estações de trem, e os soshikitetsu, ou “enlutados” que apreciam os trens que são “aposentados”.
Em 2015 havia no país cerca de 5 milhões de fãs de trens, segundo Nobuaki Takada, consultor sênior da NRI Social Information System Services, de Tóquio.
O entusiasmo dos toritetsu, porém, tem feito com que as operadoras ferroviárias aumentem a segurança nas estações para evitar problemas maiores.
Mas em 2021 a JR East decidiu abraçá-los em vez de repudiá-los, lançando um fã-clube oficial para os toritetsu.
Yusuke Yamamoto, da operadora, disse que os fãs podem tirar belas fotos dos trens da companhia e publicá-las na internet. “Então, em vez de tratá-los como nossos inimigos, queríamos construir um bom relacionamento com eles por meio dessa comunidade de fãs”.
A JR East, porém, quer que essa comunidade de entusiastas supere o estigma de elementos marginais. Yamamoto cita o caso dos fãs de mangá e animê, que com sua obsessão tornaram estas artes populares e eles deixaram de se isolar socialmente.
“Toritetsu é uma cultura e espero que sua imagem mude”, afirma Yamamoto.
Foto: iStockphoto