Tóquio – Embora a taxa de suicídio no Japão venha diminuindo nos últimos anos, esta ocorrência entre jovens está aumentando. No ano passado foram registrados 499 suicídios entre crianças de escolas primárias e ginasiais e de colégios, segundo dados do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, publicou a NHK.
O número é recorde, representando um salto de mais de 25% em relação ao ano anterior. O Ministério diz que as razões para os jovens cometerem tal ato são os mesmos de sempre: baixo desempenho acadêmico, incerteza na carreira, problemas familiares. Somente alguns especialistas incluem a pandemia neste tipo de ocorrência.
Para a doutora Kyoko Tanaka, do Centro Nacional de Saúde e Desenvolvimento Infantil, os motivos do suicídio são complexos, incluindo fatores de risco em nível biológico, psicológico e ambiental.
“A pandemia aumentou a ansiedade e o estresse entre as crianças. Isso pode ter ajudado aquelas que estavam no limite”, lamenta.
O Centro fez uma pesquisa para avaliar o impacto físico e mental da pandemia nos jovens japoneses entre novembro e dezembro do ano passado.
No total foram ouvidas 715 crianças e se descobriu que 15% dos alunos do ensino primário, estavam com sintomas de depressão moderada, 24% dos estudantes do ginásio e 30% daqueles do ensino colegial.
O estudo mostrou ainda que 24% do total já tinham pensado em suicídio, sendo que 1 em cada 6 crianças confessou ter se machucado em algo como autoflagelo, batendo em si mesmas, puxando o cabelo.
A 3 Keys é uma organização sem fins lucrativos em Tóquio que administra o site Mex voltado para adolescentes que não podem falar com suas famílias ou amigos quando enfrentam problemas graves, como abusos, maus-tratos ou pensamentos suicidas.
No último ano fiscal o site recebeu 1,7 milhão de visitas. O fundador do grupo, Takae Moriyama, disse que quando as escolas foram fechadas no ano passado muitas das mensagens recebidas diziam respeito a abusos e problemas familiares.
“Há um certo número de crianças sofrendo física e emocionalmente em lares que não são locais seguros para elas”, disse.
Algumas das postagens feitas pelos adolescentes no site são reveladoras:
“Não tenho um lugar em casa. Não tenho nenhum amigo em quem confiar. Andei vagando por aí por três horas ontem à noite. Não sei o que fazer.”
“Estou cansado. Preciso descansar. Ajude-me. Quero morrer. Não tenho lugar para estar ou para onde fugir.”
“Minha família não está se dando bem e estou sufocando aqui. Como criança não posso fazer nada e tenho que aguentar. Mas é tão difícil.”
Além do site, Moriyama abriu em maio um espaço no distrito de Shinjuku, em Tóquio, para abrigar estes jovens, oferecendo chuveiros, máquinas de lavar, um local para tirar uma soneca e poderem se sentir seguros.
Ainda que os professores nas escolas passem a maior parte do tempo com estes jovens, não é fácil para eles perguntarem sobre o que estão pensando, para detectar algum sinal de desejo suicida.
Para mudar essa situação, especialistas lançaram uma ferramenta de triagem baseada em tablet chamada de “Avaliação de Risco do Estado Mental e Físico” ou RAMPS.
Criada pelo Centro de Pesquisa em Aconselhamento e Serviços de Apoio da Universidade de Tóquio, o dispositivo auxiliará os professores ou enfermeiras escolares a detectar fatores de risco entre os alunos, explicou Yuko Kitagawa.
O RAMPS consiste em 11 questões de saúde mental voltadas para os jovens e leva cerca de três minutos para ser aplicado.
Dependendo do resultado, o dispositivo poderá indicar até busca de ajuda profissional.
No Japão cerca de 70 escolas estão usando o sistema.
Kitagawa diz que perguntar sobre o bem-estar das crianças, inclusive sobre pensamentos suicidas, é uma estratégia importante.
Ela dá o exemplo de um aluno do segundo grau que parecia alegre. Mas o processo RAMPS revelou que ele estava realmente tendo pensamentos suicidas e planejando agir.
“Eu perguntei a ele por que ele decidiu se abrir com um estranho como eu sobre tais questões pessoais”, disse ela. “Ele me disse que nunca tinha falado sobre isso porque nunca tinha sido perguntado.”
Se você suspeita que uma criança pode estar com pensamento suicida ou lutando para lidar com a situação, a doutora Tanaka do Centro Nacional de Saúde e Desenvolvimento Infantil diz que é importante evitar apressar o processo. Ela recomenda seguir quatro princípios-chave:
– Diga a eles que você se preocupa e se preocupa com o bem-estar deles.
– Pergunte diretamente se eles estão pensando em suicídio.
– Ouça e reconheça seus sentimentos.
– Mantenha-os seguros e busque ajuda profissional.
O site
Mex fornece informações sobre linhas diretas de suporte (e-mail, telefone, linha etc.) para crianças que procuram ajuda.
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