Yokohama, Japão – O prefeito de Yokohama (Kanagawa), Takeharu Yamanaka, de 53 anos, anunciou na sexta-feira (28) que deixará o cargo após uma investigação reconhecer diversos casos de assédio moral contra funcionários da prefeitura.
Yamanaka apresentou o pedido de renúncia ao presidente da Assembleia Municipal. Em entrevista coletiva, afirmou que decidiu deixar o cargo para “assumir a responsabilidade” pelo caso.
“Minhas palavras abalaram a confiança dos cidadãos, dos funcionários e da Assembleia, além de provocar confusão na administração municipal”, declarou. O prefeito também admitiu que não havia compreendido suficientemente o peso das palavras pronunciadas por alguém em sua posição.
Funcionários chamados de “escória humana”
Um relatório oficial de 100 páginas, elaborado por três advogados independentes e divulgado pela Prefeitura de Yokohama em 30 de julho, reconheceu assédio moral em sete grupos de condutas.
De acordo com a investigação, Yamanaka se referia a subordinados e integrantes da administração municipal com expressões como “escória humana” (ningen no kuzu); “incompetente” ou “imprestável” (ponkotsu); “idiota”; “burro” ou “pouco inteligente”; “pessoa de baixa capacidade”; “avestruz” e “tia”, em referência depreciativa a funcionárias.
O prefeito alegou que algumas dessas expressões foram usadas em conversas reservadas com o então diretor de Recursos Humanos, no contexto de avaliações sobre o desempenho de outros servidores. A comissão, porém, concluiu que os comentários atacavam a dignidade das pessoas e ultrapassavam os limites aceitáveis de uma avaliação profissional.
O relatório também apontou declarações preconceituosas. Yamanaka teria afirmado que “todos com mais de 55 anos têm a cabeça dura e não servem”, além de chamar funcionárias de “tia” e “mocinha”.
Gritos, documentos arremessados e gesto de arma
A comissão confirmou que o prefeito gritava com funcionários, encarava servidores de maneira intimidatória, ignorava deliberadamente algumas pessoas e, em uma ocasião, arremessou documentos durante uma explicação dentro de seu gabinete.
Em outro episódio, Yamanaka apontou os dedos como se fossem uma arma para um funcionário e disse: “Se você me trair, será isso”. A investigação considerou que o gesto evocava violência e poderia também ser entendido como uma ameaça de transferência ou punição profissional.
O prefeito ainda disse que seria necessário cometer seppuku — suicídio ritual japonês — caso Yokohama não conseguisse sediar uma conferência internacional. A comissão avaliou que, mesmo que a frase tivesse sido dita em tom de brincadeira, era fácil para os subordinados interpretá-la como uma ameaça de que teriam de deixar seus cargos.
Yamanaka também entrava em contato com subordinados durante a madrugada, fins de semana e feriados, mesmo quando não havia urgência. Determinados funcionários não podiam entrar no gabinete para explicar projetos pessoalmente e só podiam se comunicar por escrito.
Transferências usadas para provocar medo
Um dos pontos considerados mais graves envolveu o uso do poder sobre as transferências de servidores. Em uma conversa, Yamanaka sugeriu que o setor de Recursos Humanos desse uma espécie de “golpe” para deixar funcionários com medo de transferências para outras áreas.
De acordo com depoimentos reunidos pela comissão, muitos servidores acreditavam que quem contrariasse o prefeito corria risco de afastamento do cargo ou transferência para um setor distante de sua experiência profissional. Houve relatos de funcionários que adoeceram ou deixaram a prefeitura depois de mudanças consideradas difíceis de justificar.
Os investigadores concluíram que as falas revelavam uma tentativa de controlar os funcionários pelo medo. O ambiente teria ficado tão tenso que servidores verificavam entre si o humor do prefeito antes de entrar no gabinete.
“A organização inteira ficou extremamente intimidada”, afirmou a advogada Sonoko Suyama, integrante da comissão, conforme reproduzido pela TV Asahi.
O relatório classificou a situação como “extremamente grave”. Destacou que o prefeito ocupava uma posição de poder absoluto e mantinha comportamentos inadequados de maneira cotidiana e contínua.
Pressão pela saída aumentou
Yamanaka havia inicialmente manifestado a intenção de permanecer no cargo e prometido adotar medidas para evitar novos casos. No entanto, os três principais grupos da Assembleia Municipal — Partido Liberal Democrata, Komeito e Partido Democrático Constitucional — apresentaram em 14 de agosto um pedido conjunto para que ele renunciasse. O Nippon Ishin também preparava uma moção de desconfiança.
Na sexta-feira, após conversar com integrantes de seu grupo de apoio, o prefeito mudou de posição.
“Decidi deixar o cargo de prefeito de Yokohama. Apesar de ainda haver promessas não compridas feitas aos cidadãos, considerei que deveria assumir a responsabilidade pelo ocorrido”, declarou, segundo a TV Asahi.
O pedido ainda precisa ser aceito formalmente pela Assembleia Municipal. Depois da comunicação à comissão eleitoral, uma nova eleição para prefeito deverá ocorrer no prazo de 50 dias. Yamanaka não informou se pretende disputar novamente o cargo.




