Tóquio, Japão – Uma publicação da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, sobre uma barata encontrada na residência oficial ganhou repercussão internacional depois que um jornal britânico afirmou que ela estava “tão solitária” que teria feito amizade com o inseto.
A manchete, porém, não corresponde ao que Takaichi escreveu. A primeira-ministra não disse que estava solitária, não chamou a barata de amiga e tampouco afirmou que seus funcionários capturaram ou mataram o inseto.
O que houve foi a combinação, em uma frase chamativa, de partes diferentes do relato publicado por Takaichi no X em 22 de agosto.
O que Takaichi disse de fato
A história começou quando a primeira-ministra respondeu a uma pergunta frequente sobre a residência oficial: “Dizem que aparecem fantasmas no local. A senhora já encontrou algum?”
Takaichi afirmou que nunca tinha visto fantasmas, mas contou que, até pouco tempo antes, gritava ao encontrar baratas.
Segundo a publicação original, ela ficou surpresa quando uma barata passou correndo perto de seus pés, pois tomava cuidados com a limpeza, como passar pano sob a mesa, guardar restos de comida em uma lixeira com tampa e lavar embalagens plásticas antes de separá-las.
A primeira-ministra explicou que não conseguiu matar o inseto por causa da influência que recebeu, ainda na infância, do mangá Hi no Tori (Phoenix ou Fênix), de Osamu Tezuka.
A obra aborda a ideia de que a vida continua assumindo diferentes formas dentro de um ciclo de reencarnação.
“Talvez esta vida também faça parte de um longo ciclo de reencarnação”, contou ter pensado ao observar a barata.
Takaichi disse que suportou a presença do inseto durante algum tempo, esperando que ele saísse sozinho. Quando relatou o caso aos secretários, um deles respondeu que a situação não era higiênica e prometeu tomar providências.
O secretário organizou o que ela chamou de “Operação Combat”, em referência ao produto usado contra baratas. Depois disso, os insetos deixaram de aparecer.
Foi somente nesse ponto que Takaichi escreveu: “Fiquei aliviada, mas também um pouco solitária, ou talvez triste”.
Portanto, o sentimento mencionado por ela surgiu depois que a barata deixou de aparecer. Não foi uma solidão anterior que a levou a “fazer amizade” com o inseto.
Além disso, a publicação não esclarece se a barata morreu, foi capturada ou simplesmente deixou o local.
Jornal britânico criou relação que não aparece no relato
Em 24 de agosto, o jornal britânico The Telegraph publicou a seguinte manchete:
“Primeira-ministra do Japão: estou tão solitária que fiz amizade com uma barata.”
O título apresenta a frase em primeira pessoa, dando a impressão de que se trata de uma declaração literal de Takaichi. Nenhuma expressão equivalente, porém, aparece na publicação original em japonês.
A manchete também estabelece uma relação de causa e efeito inexistente no texto: Takaichi estaria solitária e, por isso, teria transformado a barata em amiga.
O conteúdo da reportagem traz mais contexto e menciona a influência de Hi no Tori, mas o título alterou substancialmente o sentido da história. A mesma manchete foi reproduzida pelo portal AOL e passou a circular em redes sociais como se fosse uma frase autêntica da primeira-ministra.
O uso da palavra “amiga” ou “companheira” também é uma interpretação jornalística. Takaichi afirmou que não conseguia matar o inseto e esperava que ele saísse por conta própria, mas não escreveu que estabeleceu qualquer vínculo ou amizade com a barata.
Jornal chinês levou episódio para o campo político
O jornal chinês Global Times, ligado ao Diário do Povo, tratou o caso em um artigo de opinião intitulado “Comentários de Takaichi sobre cuidar de baratas expõem sua hipocrisia”.
O texto não cometeu o mesmo erro de tradução do jornal britânico. Ele reproduziu que Takaichi não conseguia matar insetos por influência da ideia de reencarnação, mas utilizou a história para atacar as políticas da primeira-ministra.
O artigo contrapôs a preocupação demonstrada com a barata à flexibilização das regras japonesas para exportação de armas, à alta do custo de vida e à resposta do governo às vítimas de desastres.
Nesse caso, não se trata propriamente de uma tradução incorreta, mas de uma interpretação política e editorial claramente crítica ao governo japonês.





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