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Home Notícias Japão

“Eu pago salário. Quem é o dono de vocês no Japão?”: fazendeiros são acusados de agredir trabalhadores estrangeiros

- Seis pessoas de Mianmar foram retiradas de uma fazenda em Hokkaido e acolhidas por um sindicato depois de relatarem violência e assédio

Por Redação
23/08/2026 - domingo, 13:45
em Japão
Trabalhadores de fazenda denunciada em Hokkaido. Foto: Reprodução/JNN
Atualizado em: 23/08/2026 15:37

Kyogoku, Japão – Trabalhadores de Mianmar contratados com o visto de habilidade específica denunciaram ter sofrido agressões, ameaças, assédio sexual e outras formas de maus-tratos em uma empresa agrícola de Kyogoku (Hokkaido).

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Seis estrangeiros — quatro mulheres de 19 a 30 anos e dois homens de 20 e 23 anos — foram retirados do local e estão sob a proteção do Sindicato Regional de Sapporo. Outro trabalhador, de 37 anos, havia deixado a fazenda anteriormente e buscado abrigo em Tóquio.

Os relatos são acompanhados por gravações de áudio e vídeos feitos às escondidas pelos próprios funcionários. As imagens mostram um trabalhador sendo agarrado pela roupa e retirado à força de um galpão. Também foram registrados sons de tapas, gritos e frases intimidatórias.

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De acordo com reportagens da HBC e da HTB, a operação da fazenda seria comandada, na prática, por um vereador de Kyogoku, na faixa dos 60 anos, e seus dois filhos, ambos na faixa dos 40.

Em uma das gravações, o pai questiona os trabalhadores:

“Eu pago salário… quem é o dono de vocês no Japão?”

Em outro trecho, um dos filhos afirma que funcionários que não compreendessem as instruções ou não trabalhassem como esperado poderiam receber apenas metade do salário. Também foram registradas frases como “volte para Mianmar” e ameaças de recolher o passaporte ou o cartão de residência dos estrangeiros.

A retirada desses documentos contra a vontade do trabalhador é proibida pelas regras do programa de habilidade específica.

Golpes com barras de metal e chutes

Uma trabalhadora de 30 anos contou que sofreu agressões duas vezes pelas costas com uma barra metálica, poucos dias depois de começar no emprego, porque não havia entendido uma orientação em japonês.

“Nunca ninguém tinha levantado a mão contra mim. Agrediram de repente e comecei a chorar”, relatou à HBC.

Ela também afirmou que o vereador a repreendia por serviços não realizados e que ele tocava seus seios e batia em suas nádegas. Outras duas mulheres disseram que tiveram as nádegas tocadas ou apertadas durante o trabalho. Os estrangeiros relataram ainda comentários de conteúdo sexual.

Um dos homens retirados da fazenda contou sofreu golpes repetidamente com uma ferramenta de aproximadamente um metro de comprimento. Segundo ele, os golpes atingiram a coxa, o braço e a cabeça, mesmo depois de pedir desculpas várias vezes. A HBC detalhou o depoimento.

Outro trabalhador disse ter levado um tapa no rosto e chutes nas pernas. Ele contou que, após entregar uma carta de demissão, os fazendeiros jogaram o documento no chão e o abrigaram a continuar trabalhando.

“Eu disse que não queria mais trabalhar, mas seguraram meu queixo e disseram: ‘Você vai trabalhar’”, afirmou.

“Só havia desespero”

Em entrevista coletiva realizada na sexta-feira (21), os trabalhadores disseram que viajaram ao Japão acreditando que encontrariam boas condições de trabalho.

Por meio de um intérprete, uma das vítimas afirmou que os insultos começaram já no segundo dia de serviço.

“Eu não sabia como suportar aquela violência diária. Só havia desespero”, declarou, segundo a HTB.

A ameaça de enviar de volta a Mianmar era especialmente grave porque muitos trabalhadores contraíram dívidas para viajar ao Japão e precisam enviar dinheiro às famílias. As quatro mulheres disseram que a frase “vamos mandar vocês de volta para Mianmar” era a que mais as abalava.

Uma delas relatou que vivia sem saber quando seria expulsa, agredida ou tocada novamente. Outra resumiu a insegurança vivida na fazenda:

“O pior era nunca saber o que estava certo.”

Os trabalhadores também denunciaram condições precárias nos alojamentos. Conforme a HBC, havia vidros quebrados, fechaduras que não funcionavam, vaso sanitário entupido e até arroz mofado dentro de uma panela elétrica. Os estrangeiros afirmaram que precisaram limpar o imóvel por conta própria.

Descontos no salário

Além das agressões, há denúncias de salários não pagos e descontos feitos sem o consentimento dos funcionários.

O trabalhador de 37 anos contou que teve ¥40 mil descontados de seu pagamento após ele sofrer acusação de quebrar uma motosserra. Depois de outros descontos, teria recebido apenas cerca de ¥70 mil naquele mês.

Em outro episódio, ele levou culpa pela quebra de uma roçadeira e os empregadores ameaçaram descontar do salário o valor do equipamento. A legislação trabalhista japonesa, porém, não permite que uma empresa desconte unilateralmente do pagamento o valor integral de uma ferramenta danificada durante o serviço.

Inspeção da Imigração

A Agência de Imigração de Sapporo realizou uma inspeção sem aviso prévio na empresa em 19 de agosto. A fiscalização durou entre quatro e cinco horas e incluiu depoimentos de um dos filhos e de trabalhadores estrangeiros, informou a HBC.

No dia seguinte, representantes do sindicato entregaram à empresa um pedido formal para a realização de negociação coletiva. A entidade exige o fim imediato das agressões e dos maus-tratos, pedido de desculpas, indenização às vítimas e pagamento integral dos salários pendentes.

Os dois homens deixaram a fazenda nessa ocasião. Um deles contou que, ao deixar o alojamento, ouviu de um dos responsáveis que a empresa não conseguiria manter o trabalho sem os estrangeiros. Mesmo assim, respondeu: “Eu quero ir”.

O sindicato também pretende apresentar uma denúncia criminal à polícia.

Empresa diz que apura o caso

Os dois filhos afirmaram à HBC que não praticaram agressões, mas não responderam às demais acusações. O pai se recusou a conceder entrevista. À HTB, a empresa declarou apenas que os relatos de violência estão “sob investigação e análise”.

A HBC informou ainda que outra empresa administrada pela mesma família teve planos de estágio técnico cancelados pela Imigração e pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar em março de 2022. O motivo apontado foi a prática de atos que violaram gravemente os direitos humanos de estagiários estrangeiros.

A atual empresa agrícola teria surgido 47 dias depois dessa punição. De acordo com o sindicato, embora outras pessoas apareçam formalmente na diretoria, a operação continuaria sob controle da mesma família.

O professor Takashi Miyairi, da Universidade Hokkai-Gakuen e especialista no trabalho de estrangeiros na agricultura, avaliou que ameaças e violência incutem medo e impedem que as vítimas deixem o emprego.

“Criar medo para dominar alguém é uma das formas mais covardes de agir”, afirmou. Segundo ele, um caso dessa gravidade é incomum na agricultura de Hokkaido e mostra a necessidade de uma fiscalização regional mais rigorosa.

Tags: geraljapao
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