Tóquio, Japão – Dois grandes jornais japoneses criticaram, em editoriais publicados nesta semana, a proposta do governo de endurecer os critérios para a concessão de visto permanente a estrangeiros. Embora adotem tons diferentes, Yomiuri Shimbun e Hokkaido Shimbun consideram excessivas as novas exigências de renda e aposentadoria previstas pela Agência de Imigração.
O Yomiuri concentra sua análise nas possíveis consequências para o mercado de trabalho e questiona se as medidas não acabarão afastando profissionais estrangeiros do Japão. Já o Hokkaido Shimbun adota uma posição mais contundente: chama a mudança de política excludente, afirma que ela contraria a construção de uma sociedade de convivência multicultural e defende a retirada da proposta.
Um dos principais pontos é a exigência de que a renda familiar do solicitante permaneça acima da média das famílias japonesas. O plano também considera o valor da aposentadoria que o estrangeiro deverá receber no futuro.
Yomiuri alerta para possível redução de trabalhadores estrangeiros
Em editorial publicado na quinta-feira (27), o Yomiuri Shimbun reconheceu que o cumprimento das regras é indispensável, mas avaliou que elevar os requisitos de forma excessiva pode agravar a falta de mão de obra no país.
O jornal lembrou que trabalhadores estrangeiros se tornaram fundamentais em setores como o comércio varejista e o ramo de alimentação, em uma sociedade marcada pela redução da população.
“Se as portas para a residência permanente forem estreitadas, poderá diminuir o número de estrangeiros dispostos a trabalhar no Japão, agravando ainda mais a falta de mão de obra”, afirmou.
Atualmente, estima-se que uma renda anual de aproximadamente ¥3 milhões seja uma das referências consideradas na análise de pedidos apresentados por trabalhadores que vivem sozinhos. Pela nova proposta, a renda familiar deverá superar continuamente a média das famílias japonesas.
Segundo o Yomiuri, a renda anual média de um trabalhador japonês que vive sozinho é de aproximadamente ¥4,4 milhões. Isso representaria um aumento expressivo em relação ao parâmetro adotado atualmente.
Reduzir número de residentes que dependem de seikatsu hogo
O jornal também questionou a justificativa apresentada pelo governo para a mudança. A Agência de Imigração afirma que pretende reduzir o número de residentes permanentes que dependem da assistência social, conhecida como seikatsu hogo.
No entanto, o próprio editorial destacou que a proporção de beneficiários entre os residentes permanentes é de 1,9%, enquanto o índice na população total do Japão é de 1,6% — uma diferença pequena.
O governo sustenta que a Lei de Imigração permite conceder a residência permanente a quem possui condições de manter uma vida independente. Por isso, entende que a taxa de beneficiários da assistência social entre residentes permanentes deveria ser inferior à média japonesa.
Para o Yomiuri, porém, essa justificativa não torna razoável exigir uma renda acima da média nacional.
“Estabelecer como condição uma renda superior à média dos japoneses parece rigoroso demais. É difícil acreditar que os trabalhadores estrangeiros aceitarão essa exigência como justificável”, afirmou o editorial.
Japão pode ganhar imagem de país que abraçou o exclusionismo
O jornal também demonstrou preocupação com estrangeiros que construíram sua trajetória profissional contando com a possibilidade de obter a residência permanente. No ano passado, quase 40 mil pessoas receberam a autorização.
Embora reconheça que parte da sociedade e do meio político reage contra estrangeiros que não cumprem as normas, o Yomiuri alertou que o endurecimento não pode transmitir a imagem de que o Japão adotou uma postura hostil.
“Cumprir as regras é algo evidente. Mas, se o Japão passar a ser visto como um país que abraçou o exclusionismo, trabalhadores estrangeiros poderão escolher destinos como Coreia do Sul e Taiwan”, advertiu.
O editorial não pede a retirada da proposta, mas cobra que o governo explique cuidadosamente os efeitos que as sucessivas medidas de endurecimento poderão causar sobre a entrada e a permanência de trabalhadores estrangeiros.
Hokkaido Shimbun pede retirada da proposta
O editorial publicado pelo Hokkaido Shimbun na terça-feira (25) adotou uma posição mais dura. Logo no início, o jornal classificou a revisão como “uma mudança que ignora a consideração humanitária devida aos estrangeiros que vivem no Japão”.
Para o diário, a proposta poderá excluir grande parte da população estrangeira atualmente residente no país. Ou seja, pode frustrar os planos de pessoas que estabeleceram sua vida no Japão com base nas regras vigentes.
“Se a revisão for aprovada dessa forma, muitos estrangeiros que construíram aqui sua vida contando com o sistema atual perderão a possibilidade de obter a residência permanente”, afirmou.
O Hokkaido Shimbun também criticou o fato de uma mudança considerada tão importante ocorrer por meio de diretrizes administrativas. “Não se pode aceitar que uma alteração dessa dimensão seja feita apenas por decisão discricionária da administração. A proposta deve ser retirada”, defendeu.
Nível de salário irreal
O jornal citou dados segundo os quais a renda média das famílias japonesas em 2024 foi de ¥5,75 milhões, enquanto a mediana — valor que divide as famílias em duas metades — ficou em ¥4,51 milhões. Na prática, exigir renda acima da média significaria cobrar dos estrangeiros ganhos superiores aos da maioria das famílias japonesas.
O editorial ressaltou que muitos estrangeiros trabalham em setores como construção civil, agricultura, pesca e cuidados de idosos, nos quais os salários tornam especialmente difícil atingir esse patamar.
“Trata-se, inevitavelmente, de uma exigência excessiva”, avaliou.
O jornal também criticou o novo critério relacionado à aposentadoria. A proposta exige uma previsão de benefício equivalente ou superior à de uma pessoa que tenha contribuído durante 30 anos para o sistema de previdência dos empregados, com renda acima da média japonesa.
Assim como o Yomiuri, o Hokkaido Shimbun contestou o argumento de que o endurecimento seria necessário para reduzir a dependência da assistência social.
“A proporção de residentes permanentes que recebem assistência social está praticamente no mesmo nível da população japonesa. A Agência de Imigração não deveria apresentar explicações que possam levar a interpretações equivocadas”, afirmou.
Crítica direta ao governo Takaichi
O Hokkaido Shimbun inseriu a proposta em um conjunto mais amplo de medidas do governo da primeira-ministra Sanae Takaichi, que também inclui o aumento das taxas dos procedimentos migratórios.
Segundo o editorial, essas políticas caminham na direção contrária à construção de uma sociedade na qual japoneses e estrangeiros possam viver juntos.
O jornal ainda apontou uma contradição na postura do governo. Ao mesmo tempo que diz rejeitar o exclusionismo, o próprio governo estaria promovendo mudanças capazes de alimentar a exclusão, o preconceito e a divisão social.
“Foi o governo do Partido Liberal Democrata que ampliou a entrada de estrangeiros diante da falta de mão de obra em uma sociedade cuja população continua diminuindo”, destacou.
Ao concluir, o Hokkaido Shimbun afirmou que construir uma sociedade na qual todos possam viver com dignidade, independentemente de nacionalidade ou origem étnica, é uma responsabilidade universal.
“Se o Japão continuar adotando medidas que prejudicam os direitos dos estrangeiros, acabará perdendo a confiança da comunidade internacional”, advertiu.





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