Kobe, Japão – O Japão lembra neste sábado (17) os 31 anos do Grande Terremoto de Hanshin-Awaji, que deixou 6.434 mortos. Em Kobe e em outras regiões fortemente atingidas pelo desastre, moradores e familiares das vítimas fizeram um minuto de silêncio às 5h46, horário em que o tremor de magnitude 7,3 ocorreu, prestando homenagens aos que perderam a vida, informou a emissora NHK.
Com o passar do tempo, cresce o número de pessoas que não vivenciaram diretamente a tragédia, o que torna a transmissão das lições do desastre um desafio cada vez maior. O dia foi marcado não apenas pela lembrança das vítimas, mas também pela renovação do compromisso com a prevenção de desastres.
No Parque Higashi Yuenchi, em Kobe, lanternas foram dispostas formando o número “1.17” e a palavra “tsumugu” (“tecer”, em tradução livre). A mensagem simboliza o ato de compartilhar memórias e sentimentos importantes, conectando lembranças e ensinamentos do passado ao futuro, enquanto se mantém vivo o sentimento de luto.
No momento exato do terremoto, muitas pessoas se reuniram em silêncio, juntaram as mãos e ofereceram orações às vítimas.
Durante a cerimônia oficial organizada pela cidade de Kobe no parque Higashi Yuenchi, uma mulher que ainda não sabe o paradeiro da mãe, desaparecida desde o terremoto, falou em nome das famílias das vítimas.
Etsuko Sato (foto abaixo), de 62 anos, moradora da cidade de Kakogawa, contou que sua mãe, Masako, então com 65 anos, vivia sozinha em um apartamento no distrito de Suma, em Kobe. O prédio foi completamente destruído e incendiado, e até hoje a mãe segue desaparecida.

Em um discurso emocionado, Sato dirigiu-se à mãe como se estivesse escrevendo uma carta. Ela relembrou que, no dia do terremoto, sentiu o forte tremor em Kakogawa, mas como sua própria casa não sofreu danos graves, acreditou que a situação em Kobe não seria tão diferente. Mais tarde, ao ver as imagens da cidade devastada pela televisão — com vias expressas caídas, casas destruídas e fumaça cobrindo o céu —, passou a se culpar por ter subestimado a gravidade da situação.
Sato relatou ainda a angústia de tentar ligar inúmeras vezes para a mãe sem sucesso, alternando entre a esperança de que ela tivesse conseguido evacuar e a frustração de não poder ir ajudá-la. Quando finalmente conseguiu chegar ao local do antigo apartamento, encontrou apenas um cenário de destruição. Apesar de buscas em abrigos e hospitais, nenhum vestígio da mãe foi encontrado.
Ela contou que o local foi escavado diversas vezes, mas nem mesmo fragmentos de ossos foram localizados. Passadas três décadas, Sato disse ainda ter dificuldade em compreender se esse tempo foi longo ou curto, tamanha a dor que permanece. A ausência de uma despedida definitiva fez com que descrevesse a situação como uma “separação sem adeus”.
Sato também destacou que tragédias semelhantes continuam a ocorrer, citando o terremoto do Leste do Japão e o recente sismo na Península de Noto, lembrando que ainda há muitas pessoas que perderam familiares ou seguem procurando por entes queridos desaparecidos. Segundo ela, os desastres não terminam quando a terra para de tremer, pois a dor e a busca continuam por muitos anos.
Após o discurso, Sato depositou flores no memorial da “Chama da Esperança”, acesa desde o ano 2000 em homenagem às vítimas e à reconstrução, e fez uma oração em silêncio.
Mais tarde, ela afirmou que esperava que a mãe pudesse, de alguma forma, ouvir suas palavras. Disse ainda que pretende continuar participando de encontros como esse para transmitir sua experiência e seus sentimentos, levando essa memória adiante por 40, 50 anos ou mais, para que as lições do terremoto não sejam esquecidas.




