Tachikawa, Japão – Um caso emblemático de “rou-rou kaigo” (老老介護) — quando idosos cuidam de idosos — voltou a expor a dura realidade do envelhecimento no Japão.
Na segunda-feira (17), o Tribunal Regional de Tachikawa, em Tóquio, condenou uma mulher de 71 anos a três anos de prisão, com suspensão da pena por cinco anos, por matar a própria mãe, de 102 anos, após 12 anos de cuidados exaustivos.
Durante o julgamento, Yoko Komine, visivelmente emocionada, descreveu o desespero que antecedeu o crime. “Não havia ninguém para me ajudar. Eu me senti completamente sozinha”, relatou ao tribunal, segundo a TV Asahi.
Uma rotina que mudou de forma repentina
A filha vivia com a mãe Fuku Komine desde 2012, em Kunitachi (Tóquio) e assumiu sozinha todos os cuidados diários. A idosa tinha sintomas iniciais de demência, mas mantinha certa autonomia com apoio de serviços de assistência social. No entanto, tudo mudou na semana anterior ao crime.
A mãe deixou de conseguir se mover sozinha e passou a pedir para ir ao banheiro a cada dez minutos. A filha, com mais de 70 anos e dores nas costas, já não conseguia levá-la sozinha.
Mesmo explicando a necessidade do uso de fraldas geriátricas, a mãe não compreendia. Komine recorreu a uma cuidadora de idosos e chegou a visitar uma instituição para ajeitar a internação da mãe.
O momento de desespero
Na madrugada de 22 de julho do ano passado, Komine encontrou a mãe caída no chão, ao lado da cama, e ligou para o número de emergência 119 pedindo ajuda. Segundo seu depoimento, os socorristas atenderam ao chamado, mas pediram para ela não ligar mais, uma vez que não se tratava de um caso urgente.
“Fiquei sem saber o que fazer. Para quem pedir ajuda? Me senti ainda mais sozinha”, afirmou.
Pouco depois, tomada pelo desespero, ela colocou as mãos no pescoço da mãe e a estrangulou. “Achei que não havia mais saída”, disse.
Justiça reconhece o peso da sobrecarga
A Promotoria Pública havia pedido 8 anos de prisão, mas o tribunal considerou que a motivação estava profundamente ligada ao esgotamento físico e emocional acumulado ao longo de 12 anos.
O juiz destacou que “a carga da assistência não foi leve e não pode ser dissociada do ocorrido”, reconhecendo “grande margem para compaixão”.
Ao final do julgamento, Komine ouviu a sentença em silêncio e apenas respondeu: “Sim, entendi.”




