Nara, Japão – O julgamento do réu Tetsuya Yamagami, 45 anos, acusado de assassinar o ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, começou nesta terça-feira (28) no Tribunal Regional de Nara, sob a presidência do juiz Shinichi Tanaka.
Durante a audiência, Yamagami, de 45 anos, admitiu todas as acusações e declarou: “É tudo verdade. Quero deixar as questões legais aos meus advogados.”
A defesa reconheceu o crime de assassinato, mas afirmou que contestará parte das acusações ligadas à violação da Lei de Controle de Armas e Espadas, especialmente no que diz respeito ao “crime de disparo” com arma de fabricação caseira.
Motivo e relação com a antiga Igreja da Unificação
Durante as investigações, Yamagami explicou que sua mãe doou grandes somas de dinheiro à antiga Igreja da Unificação (atual Federação para a Paz e Unificação Mundial), o que levou a família à falência.
Ele acreditava que Abe tinha ligação com o grupo religioso, já que o ex-premiê havia enviado mensagens em vídeo a uma entidade associada à seita. Por isso, disse ter mirado em Abe por ressentimento contra a organização.
Mensagens publicadas no antigo Twitter (atual X), comentários em blogs e uma carta enviada a um jornalista independente pouco antes do ataque também revelam esse rancor. Nos textos, Yamagami escreveu que planejava se vingar da seita desde o final de 2020, quando começou a pesquisar como obter uma arma caseira.
Apesar disso, suas motivações permanecem contraditórias. Na carta enviada pouco antes do crime, ele escreveu: “Eu o via com amargura, mas Abe não é meu verdadeiro inimigo.”
Estratégia da defesa e da acusação
De acordo com o jornal Sankei, a defesa deve argumentar que o caso está ligado a um contexto de “abuso religioso” causado pela adesão da mãe à seita e que o crime foi um ato pessoal de vingança, não um atentado político.
A mãe do réu e outras testemunhas devem depor nas próximas sessões.
Por outro lado, a promotoria pretende demonstrar a gravidade, o perigo e o planejamento minucioso do crime, além de analisar o estado psicológico do acusado no momento do ataque.
Julgamento e sentença
O julgamento contará com até 19 sessões, incluindo cinco audiências de interrogatório entre 20 de novembro e 4 de dezembro. O processo deve encerrar-se em 18 de dezembro, e a sentença está prevista para 21 de janeiro de 2026.
De acordo com a acusação, Yamagami recebeu cinco acusações: homicídio, violação da Lei de Armas e Espadas, fabricação ilegal de armas, posse de explosivos e destruição de propriedade.
Entenda o caso e suas consequências
- Em 8 de julho de 2022, o ex-primeiro-ministro Shinzo Abe foi baleado durante um discurso de campanha eleitoral em frente à estação Kintetsu Yamato-Saidaiji, na cidade de Nara.
- Equipes de emergência realizaram reanimação no local e o político foi levado de helicóptero médico a um hospital, mas morreu pouco depois.
- A polícia prendeu Tetsuya Yamagami no local do ataque, sob suspeita de assassinato.
- Ele usou uma arma caseira de dois canos, feita por ele mesmo.
- Durante o interrogatório, Yamagami declarou que sua mãe havia doado grandes quantias à antiga Igreja da Unificação, levando a família à falência, e que acreditava que Abe mantinha laços com o grupo religioso.
Avaliação psiquiátrica
- O réu foi submetido a uma avaliação psiquiátrica de seis meses para determinar sua capacidade de responder criminalmente.
- Em janeiro de 2023, a promotoria concluiu que ele tinha plena responsabilidade penal e o indiciou por assassinato e outros crimes.
- Uma audiência preparatória marcada para junho de 2023 precisou ser adiada depois que uma caixa metálica suspeita foi enviada ao tribunal.
- Ao investigar o conteúdo, a polícia descobriu que se tratava de um abaixo-assinado pedindo clemência ao réu.
- As audiências preparatórias foram retomadas em outubro de 2023. Ao longo de dois anos, ocorreram nove sessões, com a participação do próprio Yamagami em algumas delas.
Mudanças na sociedade e na política
- O atentado provocou profundas transformações na sociedade e na política japonesa.
- Diversos “filhos de fiéis” — conhecidos como “segunda geração religiosa” — começaram a denunciar abusos e pressões familiares, levando à criação de uma nova lei para amparar vítimas de grupos religiosos.
- O caso também expos conexões entre políticos e a antiga Igreja da Unificação, resultando em renúncias de ministros e queda de confiança no governo.
- Em paralelo, o Tribunal Regional de Tóquio atendeu ao pedido do governo e ordenou a dissolução da seita, acusada de explorar financeiramente seus seguidores com doações milionárias e práticas de “comércio espiritual”.
- A organização recorreu da decisão, e o processo segue em andamento na Corte de Apelações de Tóquio.
Falhas graves na segurança de figuras públicas
- O assassinato também revelou falhas graves na segurança de figuras públicas.
- Em resposta, a Agência Nacional de Polícia fez uma revisão completa dos protocolos de proteção de autoridades pela primeira vez em 30 anos.
- O novo manual reforça o papel de supervisão do governo central e aumenta o envolvimento direto da Agência na elaboração e execução de planos de segurança.




