Hamamatsu – As imagens olímpicas da judoca brasileira Rafaela Silva (57kg) continuam impressionantes. Nos Jogos de Londres-2012, ela foi desclassificada ao aplicar um golpe irregular, a catada de perna (kata otsohi) na húngara Hedvig Karakas.
Rafaela saiu desconsolada, chorando nos braços da treinadora Rosicleia Campos, com a sensação de quatro anos jogados fora e mais quatro anos de treinos fortes pela frente, até a próxima Olimpíada, Rio 2016.
Foi um período muito difícil para a judoca. Ela sofreu com os ataques racistas pelas redes sociais, pensou até em desistir da carreira. Mas para Rafaela, o judô é tudo.
“Comecei a praticar o judô aos cinco anos de idade e há 20 nunca parei de treinar, então o judô é a minha vida, não consigo me imaginar fora do judô. É difícil imaginar como seria a Rafaela se não fosse o judô”, diz a atleta, durante passagem por Hamamatsu (Shizuoka) para reconhecimento das instalações onde a seleção brasileira de judô ficará hospedada para aclimatação nos Jogos de Tóquio 2020.
A delegação brasileira ficará hospedada no Hamanako Royal Hotel, um luxuoso resort-onsen à beira do lago Hamana, próximo ao Yuto Taiikukan, o ginásio onde as seleções olímpicas, feminina e masculina, treinarão. Nesta segunda-feira (12), a delegação embarcou para Tóquio, onde treinará com a seleção olímpica do Japão.
CIDADE DE DEUS E CIDADE DAS PIPAS
Esse ambiente de Hamamatsu, à beira do lago, é muito distinto se comparado às origens de Rafaela, nascida na Cidade de Deus, uma comunidade carente e violenta do Rio de Janeiro, retratado no filme dirigido por Fernando Meirelles em 2002, que recebeu quatro indicações para o Oscar.
Em sua infância na Cidade de Deus, a diversão de Rafaela Silva era jogar bola com os meninos e soltar pipa. Por isso, no encontro com o cônsul do Brasil, José Antonio Gomes Piras, Rafaela ficou feliz por saber que Hamamatsu é a cidade das pipas gigantes, com um festival de 450 anos de tradição.
A recuperação de Rafaela começou um ano após o trauma dos Jogos de Londres 2012. Foi no Campeonato Mundial de Judô de 2013, no Rio de Janeiro. Rafaela foi a única atleta brasileira a conquistar o ouro, vencendo na final a americana Marti Malloy, por ippon.
Foi o primeiro passo para a autoconfiança voltar. E naquele mesmo ano de 2013, Rafaela também ganhou ouro no Pan-americano de Judô em San José, Porto Rico. No Grand Prix Dusseldorf 2015, também lacrou o ouro aplicando quatro ippon.
O grande desafio ainda estava por vir. Seria quase no quintal de casa, distante poucos quilômetros da Cidade de Deus, na Arena 2, local da competição de judô dos Jogos do Rio de Janeiro 2016.
Rafaela Silva derrotou na final Dorjsürengiin Sumiyaa, atleta da Mongólia, e conquistou o sonhado ouro que lhe escapou em Londres.
Ao final da luta, Rafaela desabou em prantos, um choro de desabafo, já não era a “vergonha da família” como as redes sociais a insultaram. Tais imagens rodaram o mundo! A tevê japonesa fez uma reportagem com Rafaela Silva e sua treinadora-assistente, a japonesa Yuko Fujii, destacando o sonho das crianças nascidas na favela.
“Vou sempre lembrar dessas imagens. São duas Olimpíadas que ficaram bem marcadas na minha vida, uma positivamente e outra nem tanto. Mas a gente aprende muito com a nossa derrota e acho que me fortaleceu para um bom resultado na Olimpíada do Rio”, explica.
“ESTOU ME SENTINDO EM CASA”
Única atleta brasileira do judô a conquistar ouro no Campeonato Mundial e Olimpíada, o próximo desafio de Rafaela é faturar a principal medalha em dois Jogos consecutivos (Rio e Tóquio), um feito inédito para o judô do Brasil.
“Esse é um grande desafio para todo atleta de alto rendimento, duas Olimpíadas seguidas, mas nada é impossível. Vou treinar bastante para conseguir minha vaga e representar bem o Brasil em Tóquio 2020. Quero fazer a melhor Olimpíada possível e quem sabe trazer uma nova medalha para o Brasil”, volta a sonhar a atleta.
Enquanto observa a paisagem no horizonte, o Castelo de Hamamatsu, Rafaela busca motivacional em si mesma. Ela conquistou medalha de ouro na sua terra natal, o Rio de Janeiro. Agora sonha em conquistar seu segundo ouro, na terra do judô.
E Hamamatsu é o primeiro passo para a realização de seu objetivo. “Aqui é bem parecido com a minha cidade, também é bem quente, todo esse sol, estou me sentindo um pouco em casa em Hamamatsu”, compara. E manda uma mensagem:
“Para todo mundo, do judô ou outro esporte, que tenha um objetivo de vida, é preciso acreditar que independente do nosso dinheiro, da nossa raça, da nossa cor, se a gente batalhar, podemos realizar todos os nossos sonhos”.
Foto: Osny Arashiro/Alternativa
Rafaela Silva e, ao fundo, o Castelo de Hamamatsu: ela sonha com a medalha de ouro na terra do judô
Vídeo: Rafaela Silva emocionada logo após ganhar o ouro nos Jogos do Rio 2016