Tóquio – Quando o diretor Roberto Maxwell viu pela primeira vez as imagens do Dream Parade ficou desnorteado. “Era a cena de uma bateria tocando na frente de um templo daqueles chineses, bem característicos, cheio de cores e dragões”, relembra ele.
A fonte foi um vídeo gravado por uma amiga e que foi passando de mão em mão até chegar ao diretor. “Já tinha gravado o Carnaval de Asakusa [em Tóquio], filmado mestre-sala e porta-bandeira em frente a portal de templo, mas nada era parecido com aquilo”, prossegue ele.
Foram alguns meses até que Roberto conseguisse, finalmente, ver in loco o Dream Parade, evento organizado pela Dream Community, uma instituição de arte de Nova Taipé, cidade da zona metropolitana da capital de Taiwan, Taipé.
Criada com o objetivo de trazer a arte para o cotidiano das pessoas, a Dream Community foi fundada por Gordon Tsai, um empresário da construção civil que se apaixonou pelo carnaval, como ele revela numa das entrevistas que compõem o curta “A Dream of Samba”.
O documentário chega ao grande público via internet depois de uma bem-sucedida passagem, em maio, pelo Cine Rua Se7e, evento organizado por um coletivo de artistas em Vitória, Espírito Santo.
“Foi inusitado”, relembra Maxwell sobre o processo que o levou até a pequena ilha localizada a sudeste da China. “Enviei uma mensagem em inglês para um endereço no site da organização e, semanas depois, recebi uma mensagem em japonês de um conhecido aqui do Japão que é músico”, conta.
Através deste conhecido, o diretor recebeu o convite para acompanhar de perto a Dream Parade. “Fiquei atônito. Estava sem grana, sem financiamento para nada. Mas, enfim, minha curiosidade de pesquisa falou mais alto e eu aceitei”, revela.
Meses depois, estava Maxwell com os equipamentos na bolsa rumo à ilha. Foram quase 30 dias de imersão no cotidiano dos envolvidos, há apenas poucas semanas para o Dream Parade.
No documentário de 24 minutos, Maxwell registra as intenções dos fundadores e a salada multicultural que é o desfile que agrega artistas de países como a França, os Estados Unidos, o Japão e, é claro, Taiwan e Brasil. “É um caldeirão cultural, sem dúvida. Mas, o que me chamou a atenção de verdade foi o envolvimento dos indígenas”, explica o diretor.
Taiwan, como várias ilhas do Pacífico, é o lar de diversas etnias que foram sendo assimiladas e tendo suas culturas destruídas a partir do contato com povos mais poderosos como os chineses e os japoneses.
Estima-se que, atualmente, 2% dos taiwaneses seja originário de alguma das etnias aborígenes que habitava a ilha antes da chegada dos chineses, no século 17. “É uma história de resistência muito semelhante a dos povos indígenas brasileiros”, conta Maxwell. “Eles lutam com força para manter suas identidades étnicas”, prossegue ele.
E, nesta luta, os aborígenes taiwaneses encontraram um aliado um tanto quanto inusitado: o samba. “A forma como o samba entra nessas comunidades é interessantíssima. Então, eu dedico boa parte do documentário a investigar essa aproximação”, conta o diretor.
O curta encontra o seu público no site do diretor a partir do dia 5 de outubro, duas semanas antes da edição 2014 do evento, em Taipé. “Acredito que os brasileiros vão se surpreender. A gente sabe que a música brasileira é amada pelo mundo. Mas não conhece histórias do impacto que isso causa nas pessoas. O filme mostra uma dessas histórias”, aposta Maxwell.
A DREAM OF SAMBA
Em Taiwan, pequeno país no leste da Ásia, um homem descobre que o carnaval pode mudar a sua sociedade.
documentário, Japão/Taiwan, 2014, 24 min
direção: Roberto Maxwell
diversas línguas (com legenda em português)
www.robertomaxwell.info
Foto: Divulgação




