São Paulo, 20/nov – Ativistas de movimentos negros participaram no sábado 20, na capital paulista, da 7ª Marcha da Consciência Negra, que neste ano teve como tema as comemorações dos 100 anos da Revolta da Chibata. O evento contou com atos políticos, pronunciamentos e apresentações culturais e uma passeata pelas ruas do centro da cidade. A marcha foi promovida pela prefeitura e pelos movimentos negros.
A Revolta da Chibata aconteceu em 1910 e foi um levante de marinheiros negros contra as condições de trabalho a que eram submetidos.
Segundo o diretor da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen), Flávio Jorge Rodrigues da Silva, a marcha foi retomada em 2003 para mostrar que a população negra está nas ruas e continua a sua denúncia contra o racismo no Brasil. “Apesar dos avanços que conseguimos nos últimos anos o nosso país ainda tem uma desigualdade racial muito grande, por isso a necessidade de estarmos aqui hoje”.
O objetivo é ainda chamar a atenção para as mortes de jovens negros que ocorrem sistematicamente na cidade de São Paulo, para a valorização das mulheres negras e para a necessidade de políticas sociais de promoção da qualidade de vida da população negra. “Recentemente tivemos a morte de dois jovens negros por parte de policiais e isso acontece todos os dias em quase todas as cidades do Brasil”, disse Silva.
O membro da Associação Cultural Refavela, João de Oliveira, disse que ao longo do tempo a comunidade negra conseguiu desmontar o que ele chamou de mito da democracia racial. Mostrou que os negros continuam nas piores condições da sociedade em todos os setores. “Temos que trazer sempre esse debate, não só no dia da Consciência Negra, mas todos os dias. Temos que questionar o que é essa tal democracia e igualdade de oportunidades em um país como o nosso, onde 10% da população detém 10% da riqueza”.
O presidente nacional da União de Negros pela Igualdade (Unegro), Edson França, afirmou que é importante fazer manifestações como a de hoje, porque existe uma desigualdade que é constatada tanto nas pesquisas como na prática e é preciso desconstruir tanto a desigualdade quanto o racismo. “O racismo é um elemento da opressão, importante no Brasil dada a quantidade de negros. Essas atividades chamam a atenção tanto da população quanto de setores mais comprometidos com a igualdade”.
França ressaltou que apesar de ainda existir muito racismo no Brasil há muitas iniciativas contra essa postura, como o Estatuto do Negro, políticas públicas para quilombolas, Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial. “Nós temos os instrumentos, o que precisamos é fazer com que eles sejam mais efetivados. O Brasil é um país que tem o racismo, mas que não está conformado com isso”.
O coordenador da organização não governamental Fala Negão, Gilson Negão, disse que depois de 112 anos da Abolição da Escravatura os negros ainda sofrem as mazelas da sociedade, por isso é preciso enfatizar o Dia da Consciência Negra. “Para que as pessoas tenham a consciência da contribuição do negro para a construção do país é preciso educação. Nós trabalhamos muito para que nossa história seja contada nos livros didáticos, para que as pessoas tenham conhecimento da nossa história”.
Perspectivas
Com o aumento do número de políticas afirmativas, como a criação de cotas para afrodescendentes nas universidades públicas e o Estatuto da Igualdade Racial, a população negra e jovem tem uma nova perspectiva de futuro. Diferentemente de seus pais, eles agora ingressam no ensino superior e pretendem seguir estudando.
A estudante da Universidade de Brasília (UnB), Deuzilene de Oliveira Barros, 21 anos, passou no vestibular de 2007 para o curso de artes cênicas por meio das cotas. Desde 2004, UnB reserva 20% de suas vagas para afrodescendentes. “Fui a primeira da minha família a passar numa universidade pública. Meu pai tem 57 anos, é motorista de ônibus e ainda não se aposentou. Minha mãe não trabalha, fica em casa para cuidar dos filhos, ela não terminou o ensino médio”.
Ela afirma que depois de se formar, pretende entrar no mestrado. “A minha perspectiva é essa. Eu estava planejando isso. Estão falando de cotas para o mestrado, isso é bom, pois a gente saí desse ciclo da graduação, de repercutir o pensamento dos outros, e passa a produzir o conhecimento em si”.
Para Deuzilene, que mora na Ceilândia, cidade satélite de Brasília, a sociedade ainda é muito preconceituosa. “Minha vida como mulher negra é diferente porque eu cresci no século 21 e é outro esquema. A minha mãe sofreu bastante como mulher negra. Como todas as outras pessoas, sofri preconceito na escola e sofro até hoje. Isso me cansa e é uma coisa que me chateia muito, esses olhares transviados, esses olhares distintos para cima de mim como se eu fosse a exótica do lugar”.
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Deuzilene de Oliveira Barros, estudante da UNB, beneficiada pela política de cotas raciais para ingresso de novos alunos
Renato Araújo/ABr




