Tóquio, Japão – Nos bastidores de uma das mais sombrias realidades do crime organizado internacional, Mianmar se tornou palco de um esquema brutal de trabalho escravo, onde estrangeiros, incluindo brasileiros e japoneses, são aliciados com falsas promessas de emprego e forçados a participar de fraudes.
Estima-se que mais de 10 mil estrangeiros estejam confinados em bases criminosas operadas por organizações de origem chinesa, sendo obrigados a cometer crimes como fraudes telefônicas.
Um homem de Camarões, que conseguiu relatar sua situação, denunciou as condições desumanas, afirmando: “Somos forçados a trabalhar 18 horas por dia sem receber nada. É como se tivéssemos voltado à era da escravidão”.
O resgate recente de algumas dessas vítimas trouxe à tona a extensão desse problema e a urgência de medidas para combatê-lo.
Adolescentes japoneses enganados e forçados a aplicar golpes
Dois adolescentes japoneses, um de 16 anos de Aichi e outro de 17 anos de Miyagi, foram resgatados após serem recrutados por golpistas que os levaram a Mianmar sob promessas de trabalho.
O jovem de 17 anos foi aliciado por um recrutador que conheceu em um jogo online. Sem suspeitar do perigo e sem contar para a família, ele embarcou sozinho para a Tailândia, de onde foi levado ilegalmente para Mianmar e mantido em um hotel que servia como base de fraudes.
Forçado a trabalhar cerca de 10 horas diárias como “telefonista” em um esquema de golpes, ele era constantemente vigiado e ameaçado por guardas armados.
Já o jovem de 16 anos relatou que era agredido com um taser (arma de choque elétrico) sempre que não atingia suas metas diárias de golpes. Ele conseguiu pedir ajuda à família, o que resultou em sua repatriação na semana passada.
A ação das autoridades japonesas e tailandesas foi essencial para libertá-los, e um dos recrutadores foi detido por suspeita de sequestro internacional.
Brasileiros sofrem torturas e tentam fuga desesperada
Os brasileiros Luckas Viana dos Santos, de 31 anos, e Phelipe de Moura Ferreira, de 26 anos, também foram enganados por uma falsa oferta de trabalho na Tailândia e acabaram sendo sequestrados e levados a Myawaddy, em Mianmar.
Mantidos em cativeiro por uma máfia local de origem chinesa, eram obrigados a aplicar golpes financeiros pelo WhatsApp, e sofriam torturas sempre que não atingiam suas metas.
Luckas relatou o drama que viveu: “Muito difícil estar lá. Eles batiam na gente quase todos os dias. Tinha máquina de choque também. A gente sofreu bastante. Essas aqui são marcas das algemas, a gente ficava 17 horas presos assim.”
Em uma tentativa desesperada de fuga, os brasileiros planejaram atravessar montanhas e correr 22 quilômetros até a fronteira com a Tailândia, mas foram capturados por guardas armados e brutalmente espancados.
A libertação dos dois ocorreu graças à ONG Exodus Road Brasil e um acordo com o Exército Budista Democrático Karen (DKBA), que domina a região. Apesar do alívio ao chegarem ao Brasil, na última quarta-feira (19), eles criticaram a falta de apoio das autoridades brasileiras no resgate.
Alerta sobre golpes e prevenção ao tráfico de pessoas
Casos como esse são um alerta para os perigos do tráfico de pessoas e das promessas enganosas de emprego no exterior. O Itamaraty tem reforçado campanhas de conscientização sobre os riscos desse tipo de aliciamento, alertando brasileiros que buscam oportunidades no Sudeste Asiático.
É fundamental que viajantes verifiquem a idoneidade das propostas de emprego, evitem contatos suspeitos na internet e busquem informações junto a órgãos oficiais antes de aceitar qualquer oferta no exterior. Para muitos, um “trabalho dos sonhos” pode se transformar em um pesadelo sem precedentes.
Operação de resgate
Uma operação conduzida no sábado (22) pelo grupo armado Border Guard Force (BGF) no leste de Mianmar desmantelou parte de uma rede de exploração que mantinha estrangeiros em regime de escravidão moderna.
A região, conhecida como “KK Park”, é um reduto do crime organizado, onde vítimas são coagidas a aplicar golpes telefônicos sob constante vigilância de grupos armados.
Entre os resgatados, estavam vários estrangeiros. Muitos dos criminosos detidos são de origem chinesa e estão envolvidos no tráfico de pessoas e fraudes online. As operações continuam em busca de outros possíveis cativeiros na região.
Dificuldades para combater o problema
- Mianmar tem enfrentado um período de grande instabilidade desde o golpe militar de 2021, o que dificulta qualquer tipo de ação governamental efetiva para combater o crime organizado.
- Regiões como Myawaddy e o KK Park, onde muitas vítimas são mantidas, estão sob o controle de milícias armadas e grupos criminosos. Além disso, a presença de diversas facções militares e guerrilhas na região torna qualquer operação de resgate extremamente perigosa.
- Muitos desses esquemas são operados por organizações criminosas de origem chinesa que pagam propinas para garantir a conivência de autoridades locais em Mianmar e na Tailândia. Policiais e funcionários da imigração são frequentemente subornados para ignorar o tráfico de pessoas e até mesmo impedir resgates.
- Mianmar tem relações tensas com diversos países, o que torna mais difícil a negociação para resgatar cidadãos estrangeiros.
- O governo brasileiro, por exemplo, não tem relações diplomáticas próximas com Mianmar e, muitas vezes, precisa depender da Tailândia ou de ONGs internacionais para intermediar operações de resgate.
- A China, apesar de ser o local de origem de muitas dessas quadrilhas, não se envolve ativamente no combate a esses crimes, já que eles ocorrem fora de suas fronteiras.
- As vítimas são frequentemente movidas entre diferentes cativeiros, dificultando sua localização precisa. Elas podem ser obrigadas a gravar vídeos dizendo que estão bem, para enganar familiares e autoridades.
Foto: Agência Brasil
Luckas Viana dos Santos e Phelipe de Moura Ferreira, resgatados do trabalho escravo em Mianmar




