Katmandu, Nepal – Uma enxurrada de água, lama, pedras e sedimentos devastou comunidades na fronteira do Nepal com o Tibete na quarta-feira (26), deixando ao menos 160 mortos e centenas de desaparecidos. A tragédia atingiu principalmente os distritos nepaleses de Rasuwa, Nuwakot e Dhading.
Até a madrugada desta quinta-feira (27), no horário do Japão, a Polícia do Nepal havia informado a recuperação de 157 corpos. Outras 41 pessoas estavam hospitalizadas, segundo dados policiais citados pelo jornal local MyRepublica.
No lado tibetano da fronteira, a emissora estatal chinesa CCTV confirmou três mortes e 265 desaparecidos no condado de Gyirong. Estradas, redes de comunicação e o fornecimento de energia foram interrompidos na região do posto fronteiriço, de acordo com a ရိုက်တာ.
Os números ainda são preliminares e mudaram diversas vezes ao longo do dia. Em uma atualização divulgada durante a noite, a polícia nepalense informou a veículos britânicos que 579 turistas estavam desaparecidos, incluindo 466 estrangeiros de 28 países e 113 nepaleses.
Pouco antes, o Conselho de Turismo do Nepal havia divulgado uma lista com 403 pessoas sem contato, das quais 341 eram estrangeiras. Entre elas estavam cidadãos da Índia, Estados Unidos, Austrália, Reino Unido e Canadá.
Como parte dos viajantes estava atravessando ou já havia atravessado a fronteira, não está claro se as listas divulgadas no Nepal e no Tibete contêm nomes repetidos. Por isso, os números dos dois lados não devem ser simplesmente somados.
O que aconteceu
A tragédia começou por volta das 8h40 de quarta-feira, no horário local, na região do rio Lhende, um afluente do Bhote Koshi que nasce na área fronteiriça.
Uma massa de água e detritos desceu rapidamente pelo vale, atingindo primeiro Timure, perto da passagem de Rasuwagadhi. A enxurrada avançou depois por Syabrubesi e alcançou o sistema do rio Trishuli.
O Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas, o ICIMOD, informou que o nível do Trishuli subiu até nove metros em apenas 30 minutos no ponto de monitoramento de Galchhi. Em Malekhu, a elevação foi de aproximadamente sete metros no mesmo intervalo.
A força da água arrastou casas, árvores, animais, veículos, pontes e instalações de geração de energia. Imagens verificadas pela Reuters mostram pessoas correndo antes de prédios e carros serem engolidos pela massa de lama e pedras.
Em Timure, mais de 300 caminhões e outros veículos que aguardavam no posto alfandegário foram arrastados. Um levantamento preliminar citado pelo Kathmandu Post aponta que nove hidrelétricas, nove agências bancárias, 19 pontes e cerca de 40 quilômetros de rodovias foram destruídos.
Foi inundação, avalanche ou deslizamento?
Os três termos aparecem nas notícias porque descrevem etapas diferentes da mesma tragédia.
O que atingiu as comunidades foi uma inundação repentina, também chamada de enxurrada. No entanto, a principal hipótese é que ela tenha começado com uma avalanche de gelo e rochas em uma área de grande altitude.
De acordo com uma análise preliminar da Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres do Nepal, imagens de satélite indicam que uma massa de gelo, rocha e outros detritos caiu no rio Lhende, cerca de 20 quilômetros a nordeste da passagem de Rasuwagadhi.
Esses materiais podem ter bloqueado temporariamente o curso do rio, formando uma espécie de barragem natural. A água acumulada teria rompido essa barreira e descido pelo vale carregando lama, pedras e grandes blocos.
O Departamento de Hidrologia e Meteorologia do Nepal informou que as imagens mostram uma queda de gelo e um deslizamento, seguidos pela formação de um lago temporário de água e detritos. A liberação repentina desse volume teria produzido a enxurrada.
Portanto, a descrição mais precisa até agora é: uma possível avalanche de gelo e rochas provocou um bloqueio no rio, seguido por uma enxurrada de lama e detritos.
Sinal sísmico pode ter vindo do próprio deslizamento
As primeiras informações do governo nepalês apontavam que um terremoto de magnitude 4,4 poderia ter provocado a avalanche. O tremor teria ocorrido poucos minutos antes da chegada da água.
Análises posteriores, porém, levantaram outra possibilidade. De acordo com informações atribuídas ao Serviço Geológico dos Estados Unidos, o sinal sísmico pode ter sido produzido pelo próprio colapso da geleira e pelo deslocamento da enorme massa de rochas, gelo e detritos, e não por um terremoto tectônico.
O ICIMOD também informou que estações sísmicas registraram sinais incomuns, mas ressaltou que ainda não foi estabelecida uma relação de causa e efeito entre a atividade sísmica e a inundação.
Não houve chuva forte em Rasuwa nas horas anteriores ao desastre, de acordo com o serviço meteorológico nepalês. Isso reforça a hipótese de uma liberação repentina de água represada, embora os especialistas ainda não tenham confirmado se também ocorreu o rompimento de um lago glacial.
Risco de uma nova enxurrada
Especialistas alertaram que outro bloqueio permanecia rio acima, na região da fronteira. Caso a água acumulada rompa essa barreira natural, uma nova enxurrada poderá atingir as comunidades localizadas abaixo.
Moradores das margens dos rios Bhote Koshi, Trishuli e Narayani receberam orientações para procurar áreas mais altas. Autoridades também emitiram alertas para partes do norte da Índia, principalmente nos estados de Bihar e Uttar Pradesh.
As operações de busca mobilizaram milhares de policiais, militares, equipes médicas e helicópteros. O acesso, porém, torna-se difícil pela destruição de estradas e pontes e pelo nível elevado dos rios. Em algumas das áreas mais atingidas, as aeronaves não conseguiram pousar.
O mesmo vale sofreu outra inundação repentina em julho de 2025. Na ocasião, o rompimento de um lago formado sobre uma geleira no Tibete provocou uma enxurrada que matou ao menos 11 pessoas e destruiu a Ponte da Amizade, ligação terrestre entre Nepal e China.
Especialistas do ICIMOD afirmaram que as mudanças climáticas estão alterando geleiras, condições da neve, solos permanentemente congelados e encostas no Himalaia. No entanto, ressaltaram que ainda é cedo para atribuir diretamente a tragédia desta semana ao aquecimento global.




