တိုကျို – Jigyan Kumar Thapa, um cidadão nepalês residente na província de Kanagawa há 25 anos, vivenciou uma experiência desconcertante durante sua rotina diária. Enquanto viajava de trem, foi abordado por um homem, aparentemente na casa dos 30 anos, que o olhou fixamente e, de forma brusca, disse: “Este é o Japão, então não traga cultura estrangeira, conforme-se com o Japão.” O foco do comentário estava no topi, o tradicional chapéu nepalês que Thapa usava.
Surpreso e assustado com a agressividade, Thapa não respondeu e desceu na próxima estação. Para ele, a situação era inédita, já que, apesar de sua longa residência no Japão, nunca havia sido confrontado de maneira tão direta por sua identidade cultural.
Cultura e identidade em jogo
Thapa, que chegou ao Japão como estudante internacional em 2000, sempre se orgulhou de sua cultura nepalês. O topi que usava não era apenas um acessório, mas um símbolo de sua herança, algo tão essencial quanto uma gravata para reuniões e eventos importantes. No entanto, após o incidente, ele passou a esconder o chapéu quando saía em público, temendo ser alvo de mais hostilidade.
Em um post nas redes sociais, Thapa compartilhou sua experiência e as emoções que surgiram com ela: “Nunca senti esse tipo de medo antes”, escreveu. Sua postagem gerou enorme repercussão, com mais de 16 milhões de visualizações e mais de 3.000 respostas. Contudo, muitas dessas reações foram negativas. Alguns internautas associaram a discriminação ao comportamento de certos estrangeiros no Japão, com comentários como “isso é o resultado de alguns estrangeiros se comportando sem consideração”.
A xenofobia velada no Japão
O Japão, tradicionalmente uma sociedade homogênea, enfrenta um aumento no número de estrangeiros residentes, especialmente devido à escassez de mão de obra em setores como cuidados de saúde, construção e serviços. Em 2024, o número de estrangeiros no Japão atingiu um recorde de 3,7 milhões, impulsionado pela necessidade de trabalhadores estrangeiros. No entanto, apesar de sua contribuição essencial, muitos estrangeiros continuam a enfrentar discriminação e rejeição, especialmente aqueles que se destacam por suas diferenças culturais visíveis.
A situação de Thapa reflete um dilema mais amplo no país: a aceitação de estrangeiros como membros de pleno direito da sociedade japonesa, e não apenas como mão de obra temporária. Mesmo sendo um residente permanente, Thapa ainda é visto por alguns como um “estrangeiro”, uma percepção que coloca em questão a verdadeira integração.
Respostas sociais e políticas
A reação ao post de Thapa também trouxe à tona o crescente debate político sobre imigração no Japão. A política de imigração do Partido Liberal Democrático (PLD) e de outros partidos políticos tem se mostrado cada vez mais focada em restringir a presença de estrangeiros ilegais, enquanto, ao mesmo tempo, reconhece a necessidade de trabalhadores estrangeiros. Contudo, ainda persiste uma resistência à plena aceitação dos estrangeiros como parte integral da sociedade.
Thapa, que trabalha na Fundação Internacional de Kanagawa e é intérprete oficial da Embaixada do Nepal, não apenas compartilhou sua dor, mas também fez um apelo para que a sociedade japonesa o veja, e a outros estrangeiros, como aliados na construção de uma sociedade multicultural. Ele enfatizou a importância de seguir as leis e costumes japoneses, mas também pediu respeito pelas identidades culturais dos imigrantes.
“Quero que os estrangeiros sigam as regras também, e quero que japoneses e estrangeiros vivam com paz de espírito como membros da sociedade japonesa. Só espero que, pelo menos, me deixem usar meu chapéu”, desabafou, segundo O Mainichi.
A questão do pertencimento
Em uma reflexão mais profunda, Thapa deixou claro que, embora tenha sofrido ataques verbais, não acredita que deve fugir de uma sociedade que está começando a se tornar mais intolerante. “Acho importante entender por meio do diálogo que existem formas de pensar diferentes das suas”, afirmou, destacando o desejo de promover a tolerância e a convivência pacífica.
A história de Thapa ressoa com a de muitos outros estrangeiros que vivem no Japão. Apesar de se esforçarem para se integrar e respeitar os costumes locais, continuam a ser lembrados de sua condição de “estrangeiros”. A experiência de Thapa não é isolada, mas reflete a dificuldade de muitas pessoas de culturas diversas ao tentar encontrar seu lugar em uma sociedade tradicionalmente fechada.




