Tóquio, Japão – Durante a campanha eleitoral para a Câmara Baixa do Parlamento, cuja votação acontece neste domingo (8), informações falsas relacionadas a estrangeiros passaram a se espalhar de forma acelerada nas redes sociais, alimentando preconceito e discriminação, informou o jornal Yomiuri.
Em meio ao debate eleitoral, no qual as políticas de imigração se tornaram um dos principais temas, especialistas alertam para a recorrência desse tipo de desinformação e pedem cautela diante de conteúdos que exploram emoções fortes.
Uma das mensagens mais compartilhadas afirma que “empresas recebem até 720 mil ienes do governo para cada estrangeiro contratado”. Publicações com esse teor começaram a circular no X (antigo Twitter) pouco antes e logo após o anúncio das eleições. Um dos posts, feito em 29 de janeiro, ultrapassou 14 mil repostagens e foi visualizado mais de 500 mil vezes, apesar de ser falso.
A informação faz referência equivocada a um programa real do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, o Subsídio de Apoio à Garantia de Recursos Humanos. O programa prevê auxílio financeiro de até 800 mil ienes por empresa, e não por trabalhador, para empregadores que promovam melhorias no ambiente de trabalho de estrangeiros, como a tradução do regulamento interno ou a concessão de licença remunerada para retorno temporário ao país de origem. O objetivo é prevenir conflitos causados por diferenças linguísticas e culturais, e o valor máximo é limitado por empresa, independentemente do número de estrangeiros contratados.
O ministério esclarece ainda que existem diversos programas de apoio ao emprego, válidos também para trabalhadores japoneses. Segundo um representante do setor de políticas de emprego para estrangeiros, não existe qualquer subsídio concedido simplesmente pela contratação de mão de obra estrangeira.
Durante a campanha eleitoral, os partidos apresentaram propostas distintas sobre imigração. A base governista defende medidas como “tolerância zero a imigrantes em situação irregular”, no caso do Partido Liberal Democrata, e o endurecimento dos critérios para concessão de cidadania, defendido pelo Partido da Inovação do Japão. Já partidos da oposição falam em “sociedade multicultural” e na criação de leis para regular a compra de terras por estrangeiros.
O debate acirrado refletiu diretamente nas redes sociais. Dados da ferramenta de análise “Social Insight” mostram que postagens no X contendo as palavras “estrangeiro” ou “imigrante” somavam cerca de 200 mil por dia até meados de janeiro. Após a dissolução da Câmara Baixa, em 23 de janeiro, o número disparou: foram 520 mil publicações no dia seguinte e 630 mil no dia 25.
Outro boato amplamente difundido afirma que o governo japonês pretende dobrar o número de paquistaneses no país, passando de 25 mil para 50 mil pessoas. A publicação foi repostada mais de 6.500 vezes e gerou comentários com conteúdo discriminatório, sobretudo contra muçulmanos.
O Ministério das Relações Exteriores negou a informação e afirmou não existir qualquer diretriz oficial nesse sentido, tampouco base para os números apresentados. No ano passado, durante as eleições para a Câmara Alta, circulou desinformação semelhante alegando que o governo planejava aceitar 50 milhões de imigrantes chineses.
Também se espalharam imagens afirmando que 65% dos presos por homicídio e lesão corporal no Japão seriam chineses ou coreanos, enquanto apenas 3% seriam japoneses. Uma dessas postagens, feita em 23 de janeiro, teve cerca de 4 mil repostagens e 140 mil visualizações. Os dados oficiais, no entanto, mostram um cenário completamente diferente.
Segundo estatísticas do Ministério da Justiça analisadas pelo jornal Yomiuri, entre 2006 e 2024, japoneses representaram entre 84% e 93% dos condenados por homicídio, enquanto chineses e sul-coreanos somaram apenas de 1% a 6%. Nos casos de lesão corporal, japoneses corresponderam a 90% a 96%, e chineses e sul-coreanos, juntos, a apenas 1% a 4%. Considerando todos os crimes, a participação desses dois grupos estrangeiros no total de detentos se manteve em torno de 4%.
Para o professor Hiroshi Taira, especialista em teoria da mídia da Universidade J. F. Oberlin, conteúdos que despertam emoções negativas intensas tendem a atrair mais atenção e se espalhar com maior facilidade.
Segundo ele, esse mecanismo é explorado para inflamar a indignação social, aprofundar divisões e influenciar resultados eleitorais ou gerar lucro. O professor alerta que esse padrão deve se repetir em futuras eleições e até em situações de desastre, e reforça a importância de verificar se as informações já foram checadas antes de reagir ou compartilhar, mantendo a serenidade no momento do voto.




