TÓQUIO – Nas eleições realizadas neste domingo (20), a coalizão governista do Japão sofreu um revés significativo: perdeu a maioria na Câmara Alta do Parlamento, equivalente ao Senado no Brasil. O resultado enfraquece a base de apoio legislativo do governo, dificultando a aprovação de projetos e reformas no Parlamento japonês.
Ishiba não pretende renunciar
Segundo o jornal Asahi Shimbun, enquanto aguardava a contagem dos votos, o primeiro-ministro Shigeru Ishiba — também presidente do Partido Liberal Democrata (PLD) — declarou sua intenção de permanecer no cargo, mesmo diante do cenário adverso, o que deve aumentar a pressão sobre sua já conturbada gestão.
A derrota do PLD nesta que é a segunda eleição nacional consecutiva — após a perda na Câmara Baixa no outono passado — deve intensificar o debate interno sobre a possível renúncia de Ishiba.
Questionado em um programa de televisão na noite de 20 de julho sobre a continuidade no cargo, Ishiba destacou que o PLD, apesar de não alcançar a maioria, ainda é o partido com o maior número de cadeiras na Câmara Alta.
“Devemos cumprir nossa responsabilidade com a nação e nossa responsabilidade como o ‘partido número 1 em comparação’”, afirmou.
Ishiba reiterou publicamente sua decisão de continuar à frente do governo.
Governo perde maioria nas duas casas
A derrota coloca o governo em uma posição extremamente delicada: a coalizão governista perdeu o controle majoritário tanto na Câmara Alta quanto na mais poderosa Câmara dos Representantes. Trata-se de uma situação rara no Japão pós-guerra, o que torna o apoio da oposição ainda mais crucial para aprovar leis e orçamentos.
O PLD e seu parceiro de coalizão, o Komeito, não conseguiram atingir a meta de conquistar ao menos 50 das 125 cadeiras em disputa, número necessário para garantir maioria simples.
O PLD também perdeu parte de sua base conservadora para o partido populista de direita Sanseito, que cresceu como alternativa.
Crescimento da extrema-direita
Apesar de uma agenda nacionalista centrada no lema “Japão Primeiro” — considerada por críticos como xenofóbica —, o Sanseito superou a marca de 10 cadeiras na Câmara Alta, o que lhe permite apresentar projetos de lei. Esse crescimento sinaliza uma mudança significativa no espectro político do país.
Voto de desconfiança nas urnas
A eleição foi um termômetro da confiança pública no governo minoritário de Ishiba, que enfrenta críticas por sua condução da economia — especialmente o aumento no custo de vida, o crescimento estagnado dos salários e o avanço limitado nas negociações comerciais com os Estados Unidos, liderados por Donald Trump.
“Temos que aceitar o resultado com humildade”, afirmou Ishiba em uma entrevista televisiva, reconhecendo a responsabilidade do PLD como partido governista.
As declarações foram feitas após o secretário-geral do PLD, Hiroshi Moriyama — segunda figura mais importante da legenda —, afirmar que “um vácuo político deve ser evitado”.
Oposição ganha força, mas descarta coalizão
Com os primeiros resultados divulgados, Yuichiro Tamaki, líder do Partido Democrático para o Povo (PDP), descartou a possibilidade de formar uma coalizão com o governo. Apesar disso, seu partido — que participou de articulações com a base governista — quadruplicou o número de cadeiras.
Outros líderes da oposição, como os representantes do Partido Democrático Constitucional do Japão (PDCJ) e do Partido da Inovação do Japão (PIJ), também rejeitaram se aliar à coalizão. O PDCJ, no entanto, não avançou significativamente.
Já o líder do Sanseito, Sohei Kamiya, adotou um tom mais moderado e indicou que futuras cooperações com o PLD poderiam ser avaliadas “caso a caso”, de acordo com cada política.
Sistema eleitoral e participação
A Câmara Alta possui 248 membros com mandatos fixos de seis anos, sendo metade eleita a cada três anos para garantir continuidade. Diferentemente da Câmara Baixa, que pode ser dissolvida pelo primeiro-ministro, os mandatos da Câmara Alta não são interrompidos.
Das 125 cadeiras em disputa (incluindo uma eleição suplementar), 75 foram escolhidas por voto distrital e 50 por representação proporcional. Aproximadamente 520 candidatos concorreram.
Os eleitores votam duas vezes: uma para o candidato do distrito e outra para a lista proporcional, em que os assentos são distribuídos com base na votação total dos partidos e seus indicados.
A participação eleitoral foi estimada em 58,52% até as 4h da manhã de segunda-feira — superior aos 52,05% registrados nas eleições de 2022. Um recorde de 26 milhões de eleitores votaram antecipadamente, aproveitando o fim de semana prolongado.
Economia e política externa em pauta
Pesquisas pré-eleitorais já indicavam dificuldades para a coalizão PLD-Komeito. Durante a campanha, temas como o corte no imposto sobre o consumo e políticas migratórias polarizaram o debate.
O PDCJ e o PIJ defenderam a redução ou extinção do imposto como forma de aliviar o impacto da inflação sobre as famílias. Ishiba, por sua vez, se opôs à medida e propôs distribuir auxílios financeiros pontuais.
“O povo japonês disse ‘não’ ao governo Ishiba”, declarou o líder do PDCJ, Yoshihiko Noda.
Primeiro-ministro Shigeru Ishiba. Foto: Reprodução/The Asahi Shimbun
Fonte: Japan News e Kyodo News




