A escola primária Sanarudai, em Hamamatsu (Shizuoka), promoveu uma palestra no dia 24 de julho para discutir a questão do futuro profissional das crianças estrangeiras no Japão. O assunto foi abordado por Lilian Keiko Nakamura, orientadora da escola ginasial Kaisei; Ken Makihara, bombeiro da Divisão Sul da Guarnição de Hamamatsu e Tetsuyoshi Kodama, presidente da Associação Mundial de Caratê Shidokan em Shizuoka e vice-presidente da Aliança de Intercâmbio Brasil Japão. A iniciativa partiu da própria escola, que conta com 60 alunos estrangeiros, a maioria brasileiros. As palestras foram assistidas pelos alunos acompanhados dos pais, e foram apresentadas em português com tradução em espanhol e japonês.
Lilian iniciou a palestra falando que chegou no Japão aos 11 anos de idade, junto com seus pais que vieram para trabalhar. Na época ela era a única aluna estrangeira, e por isso sofreu por não entender nada do idioma e maus tratos pela sua cor e pelos cabelos ondulados. Chorou muitas vezes e não entendia por que tinha que estar ali, mas nunca desistiu por causa do apoio que teve de sua mãe. Com o tempo seus pais se separaram e para continuar os estudos ela optou por fazer o colegial noturno e trabalhar de dia.
Com muito sacrifício, Lilian conseguiu ingressar numa faculdade onde estudou comunicações. E hoje, já formada, trabalha como orientadora na escola ginasial Kaisei, e prepara-se para prestar o exame para adquirir a licença de professora pública. “Se vocês se esforçarem o máximo, será possível realizar seus sonhos. E se eu consegui, vocês também podem”, disse ela aos alunos.
Ken, que chegou no Japão aos 9 anos e vive no país há 18, disse que se expressa melhor em japonês, mas falou em português sobre suas experiências de quando chegou e ingressou na escola pública sem entender o idioma. Ele falou que, apesar das dificuldades, tem boas recordações, e, inclusive, os colegas de classe japoneses da época são seus melhores amigos até hoje.
Ken contou que sempre sonhava em se tornar um profissional que pudesse ajudar as pessoas, e decidiu ser bombeiro. Para isso, dedicou-se aos estudos e também no preparação física. No dia do exame, ele disse que não estava muito confiante porque eram 300 candidatos japoneses, mas felizmente foi aprovado na primeira tentativa. O rapaz teve de adquirir a nacionalidade japonesa para se tornar bombeiro. Ele conta que hoje é muito feliz por ter conseguido realizar seu sonho no Japão, e deseja que sua experiência sirva de incentivo para as crianças.
Kodama, que também ocupa o cargo de conselheiro da Polícia da Província de Shizuoka e é membro do Conselho da Secretaria de Educação de Hamamatsu, falou sobre a integração dos brasileiros na sociedade japonesa. Ele começou contando a história da imigração dos japoneses no Brasil, dos sofrimentos vividos por eles, dos seus ideais e princípios, como a união de forças para se construir algo em benefício da comunidade, e que deveria ser usado como exemplo para o bem da comunidade brasileira no Japão.
Kodama falou, ainda, da importância da integração dentro de uma sociedade para o bem do futuro das crianças. “Se os pais se acharem que são somente dekasseguis no Japão, esse sentimento irá passar para os filhos também e eles acharão que somente terão chances de trabalhar nas fábricas, o que não e verdade, por isso é importante que eles tomem uma postura como imigrantes, infiltrando-se na sociedade japonesa e tornando-se parte de um todo, aprendendo o idioma, cultura e os costumes, participando de atividades coletivas, cumprindo com deveres e manifestando seus direitos”, disse.
Kodama citou alguns exemplos de adolescentes que conheceu durante suas rondas noturnas de aconselhamento aos jovens, que desistiram de estudar e não tinham nenhum objetivo na vida. Durante a palestra, ele perguntou para as crianças, uma a uma, sobre qual a profissão que gostariam de ter no futuro, e aconselhou-os, pedindo para que os pais os apoiassem. Um dos alunos disse que gostaria de ser bombeiro, e que ouvir a palestra de Ken encorajou-o a seguir com esse sonho.




