Tokara, Japão – Um fenômeno geológico inédito está chamando a atenção de especialistas no Japão. Entre os dias 2 e 5 de julho, as ilhas de Kotakara e Takara, no arquipélago de Tokara, sofreram um deslocamento de aproximadamente 10 centímetros no sentido norte-sul, segundo análise do professor Yusaku Ota, da Universidade de Tohoku. A mudança abrupta no movimento das placas tectônicas contrasta com o padrão usual da região, que tradicionalmente se desloca na direção nordeste.
A análise combinou dados da Autoridade Geoespacial do Japão com medições de estações instaladas por operadoras de telecomunicações. O levantamento revelou que Kotakara moveu-se 6 cm para o norte-noroeste, enquanto Takara avançou 3,5 cm para o sul — comportamento nunca antes registrado na área.
“É claramente um novo estágio da atividade geológica da região. Nunca vimos nada semelhante desde que os dados começaram a ser registrados”, afirmou o professor Ota, que estuda há anos a sismicidade de Tokara.
Possíveis causas: magma ou falhas tectônicas lentas
Embora a movimentação tenha coincidido com um terremoto de magnitude 5,6 ocorrido no dia 2 de julho, o professor Ota acredita que a explicação vai além desse abalo. Duas hipóteses estão sendo investigadas: a infiltração de magma ou fluidos na crosta terrestre, o que empurraria as ilhas, ou um fenômeno conhecido como “deslizamento lento”, quando falhas tectônicas se movem gradualmente e sem grandes tremores.
Ainda não está claro por que a atividade sísmica se concentra nas partes leste e oeste da ilha de Kotakara, e os cientistas não conseguem prever os desdobramentos da situação. Entre 21 de junho e a manhã de 2 de julho, o padrão de movimentação era o oposto: as ilhas estavam se aproximando da ilha de Akuseki. Kotakara havia se movido 5,2 cm para o nordeste e Takara, 1,5 cm para o leste-nordeste. Em contrapartida, Akuseki havia recuado 1,3 cm para o oeste-sudoeste. Situação semelhante já havia sido observada nos anos de 2021 e 2023, o que reforça a anomalia do evento atual.
“É uma mudança drástica de direção e magnitude. Vamos continuar investigando para entender o que desencadeou esse comportamento anormal”, disse Ota.
Governo monitora, mas incertezas permanecem
Durante reunião da Comissão de Pesquisas Sísmicas do governo, realizada no dia 9 de julho, o presidente do comitê e professor emérito da Universidade de Tóquio, Naoshi Hirata, declarou que o deslocamento acelerado das ilhas em poucos dias sugere a presença de uma força adicional além da movimentação regular das placas. Segundo ele, a interação entre a subducção da Placa do Mar das Filipinas e a expansão da Fossa de Okinawa pode estar gerando pressões incomuns.
No entanto, Hirata alertou que ainda há escassez de dados para identificar a causa exata. “Pessoalmente, considero possível que haja atividade magmática profunda ou fluidos reagindo quimicamente no subsolo”, comentou. A comissão reforçou que continua monitorando de perto os tremores e deformações geológicas na região.
Evacuações continuam
Diante da intensa atividade sísmica que afeta a região desde 21 de junho — com 1.725 terremotos com intensidade sísmica 1 ou superior registrados até 9 de julho —, as autoridades iniciaram a evacuação de moradores das ilhas afetadas. No total, 64 pessoas já foram retiradas de Akuseki e Kotakara, sendo cinco delas na terceira leva de evacuação, concluída no dia 9, quando chegaram ao porto de Kagoshima.
Um dos evacuados, um pescador na faixa dos 70 anos, relatou: “Estava preocupado com a intensidade dos tremores. Fiquei na ilha porque tenho um barco, mas decidi sair quando todos insistiram. Agora espero conseguir dormir em paz.”
A prefeitura de Toshima avalia prorrogar a evacuação além do dia 11, prazo inicial, com base na evolução dos tremores. Ainda permanecem 20 moradores em Akuseki e 44 em Kotakara, assistidos por profissionais de saúde enviados pela vila.
Auxílio financeiro antecipado
Em resposta à crise, o Ministério do Interior decidiu antecipar o repasse de cerca de 114 milhões de ienes (mais de R$ 4 milhões) em verbas de compensação fiscal previstas para setembro. A medida visa garantir que a administração da vila de Toshima continue operando normalmente e que a população tenha acesso a recursos básicos.
“Vamos continuar colaborando para assegurar a segurança e a tranquilidade dos moradores”, afirmou o ministério em nota oficial.
Com informações da NHK, Agência Meteorológica do Japão e Universidade de Tohoku
Foto: Adaptação e reprodução NHK

