Oizumi, 16/nov – Há 20 anos no Japão, o professor Angelo Ishi (foto abaixo) é um dos três representantes eleitos do Conselho dos Representantes Brasileiros no Exterior (CRBE) da região que compreende a Ásia, África, Oriente Médio e Oceania. Professor da Universidade de Musashi, em Tóquio, esse paulistano de 43 anos terá a missão de, nos próximos dois anos, levar as reivindicações dos brasileiros que vivem fora do país ao governo do país. “Precisamos mostrar que não nos contentaremos apenas em ser ouvidos”, analisou Ishi, diretamente da Austrália, onde faz pesquisas sobre os dilemas da comunidade verde-amarela residente naquele país.
Alternativa: Como pode avaliar o resultado das eleições do CRBE e a nomeação de três representantes daqui do Japão?
Angelo Ishi: Foi uma grata surpresa que três do Japão tenham entrado, e sinto, ao mesmo tempo, alegria e responsabilidade pelo fato de ter sido o mais votado do Japão. Devo agradecer a todos os que votaram em mim, e especialmente aos leitores da “Alternativa” que me apoiaram. Pelo tamanho da população brasileira no Japão, eleger três representantes como titulares e mais dois como suplentes no CRBE não foi nada mais do que a obrigação. A grande surpresa desta eleição, a meu ver, foi o fator Líbano. Como pudemos permitir que uma comunidade estimada em apenas 10 mil brasileiros conseguisse eleger uma titular e mais dois suplentes, sendo que a titular foi a mais votada do bloco? O sucesso da comunidade do Líbano nos serve de lição e de alerta em termos de união e mobilização. Mesmo com o término das eleições, os esforços de conscientização da nossa comunidade quanto à importância do CRBE devem continuar.
Alternativa: Quais são as suas expectativas em relação a esse conselho? E em relação ao seu trabalho como conselheiro?
Ishi: Minha expectativa é enorme, mas, ao mesmo tempo, acompanhada de cautela. Quero conferir até que ponto as reivindicações das comunidades conseguirão chegar à fase da implementação. Uma coisa é a reivindicação ser “ouvida” e “encaminhada”, outra bem diferente é ela ser “analisada” e “implementada”. Ou seja, sair do papel e virar realidade. Como já escrevi antes na minha coluna, não podemos subestimar nem superestimar os poderes do Conselho. Também me interessa saber até que ponto haverá espaço para se propor projetos que vão além da solução de problemas, projetos que fomentem o intercâmbio e a reflexão dos brasileiros no mundo sobre a sua situação de expatriados.
Alternativa: O que espera do primeiro encontro do conselho na 3ª Conferência Brasileiros no Mundo?
Ishi: Este primeiro encontro vai ser crucial em vários sentidos. Primeiro, os 16 representantes terão que passar para o governo brasileiro uma imagem de seriedade e firmeza. Segundo, os representantes do bloco da Ásia-África-Oriente Médio-Oceania terão que mostrar firmeza perante os demais blocos, para que as suas demandas sejam tratadas com o mesmo carinho e prioridade equivalente às demandas vindas, por exemplo, dos Estados Unidos. Em terceiro lugar, os representantes do Japão precisam tranquilizar as comunidades não só da África e da Oceania, mas também os de outros países da Ásia e do Oriente Médio, de que eles não serão ignorados nem menosprezados. Quero, antes de tudo, observar a disposição dos conselheiros de todos os blocos.
Alternativa: De imediato, em sua opinião, o que precisa ser discutido e levado ao governo brasileiro?
Ishi: Sei que há muitos assuntos específicos da comunidade brasileira no Japão a serem levados para o nosso governo, e vamos discuti-los na medida do possível nesse curtíssimo tempo que nos resta até a Conferência. Mas acho inevitável que a primeira demanda a ser levada é exigir que o governo se comprometa a fazer uma radiografia completa de todos os problemas e falhas no sistema dessa eleição que acabou, com o intuito de ajustar e melhorar drasticamente o processo inteiro. É inadmissível que determinados problemas se repitam na próxima eleição, daqui a dois anos. A lista de mudanças necessárias é interminável. Por exemplo, reduzir ou eliminar o período de “pré-candidatura” e dar mais tempo para a divulgação das candidaturas oficializadas. Também devo enfatizar o quanto a credibilidade dos eleitos foi prejudicada pelo fato de o número de votos de cada eleito não ter sido divulgado, pois isso deu margem para que colocassem em dúvida a nossa legitimidade. Diante de especulações das mais variadas, quem mais vai sofrer são os próprios conselheiros. Não estou reclamando do que já se passou, estou apenas tecendo sugestões para se melhorar as próximas eleições. O processo inteiro precisa ser repensado de modo a garantir a credibilidade dos eleitos e facilitar a atuação deles.




