Os termômetros marcavam 34 graus em Toyohashi (Aichi), no dia 5 de setembro. Apesar do intenso calor, muita gente compareceu ao Dia do Brasil, realizado todos os anos para comemorar o 7 de Setembro. Desta vez, a atração principal foi a banda Detonautas Roque Clube, que veio ao Japão pela segunda vez a convite da Associação Brasileira de Toyohashi (ABT), organizadora do evento, por intermédio da web rádio Nikkey.
Segundo Alcides Tanaka, presidente da ABT, a polícia calculou que cerca de 30 mil pessoas passaram pelo Dia do Brasil, realizado a céu aberto no Parque Toyohashi, durante todo o dia. “O evento foi muito bom e o público compareceu em massa, apesar do calor. A nossa intenção é de promover entretenimento para a comunidade, para que as pessoas tenham orgulho de ser brasileiro”, disse.
Além de Toyohashi, os Detonautas fizeram uma apresentação na casa noturna Young Adult, em Hamamatsu (Shizuoka), no dia 4 de setembro. A banda é formada por Tico Santa Cruz (vocal), Cléston (DJ e percussão), Renato Rocha (guitarra), Philippe (guitarra e vocal de apoio), Tchello (baixo) e Fábio Brasil (bateria). Os shows fazem parte da turnê Acústico, lançado em CD e DVD no ano passado. Confira, a seguir, entrevista com o vocalista Tico Santa Cruz.
Revista Alternativa: Como estava a expectativa da banda para os dois shows?
Tico Santa Cruz: Em Hamamatsu, é a segunda vez que a gente toca. Da primeira vez, fizemos um bom show. O público foi bem bacana e eu gostaria de reencontrar os que estavam lá, além de novas pessoas. Em Toyohashi, a expectativa era de um público bem grande, cerca de 30 mil pessoas, porque é gratuito e envolve não somente a comunidade brasileira, mas também a japonesa.
Alternativa: Qual foi a sua impressão das primeiras apresentações no Japão?
Tico: Fomos muito bem recebidos. As condições para trabalhar são boas, os equipamentos são bons e a gente teve a disposição uma ótima infra-estrutura, o que facilita tudo. Teve a emoção de estar em um país diferente, de conhecer uma outra cultura. A gente tem sempre a intenção de levar ao público uma atração que fique guardada na memória de todo mundo, inclusive na nossa.
Alternativa: Foi bom conhecer o Japão?
Tico: O país ficou guardado na minha memória e tenho uma grande admiração, pelo fato das pessoas serem cordiais e, ainda, porque fomos tratados de uma forma bastante educada. O Japão tem uma boa infra-estrutura e os japoneses tratam as coisas de uma forma muito séria, com o comprometimento coletivo. Eu admiro muito isso. Talvez é um pouco do que falta para a gente e que sirva de lição para nós aprendermos e levarmos conosco. Eu espero ter a oportunidade de trazer minha família para cá. Quero que meus filhos conheçam esse país.
Alternativa: Quais são os próximos trabalhos da banda?
Tico: Vamos lançar um CD com músicas inéditas no ano que vem e terminar a turnê do DVD Acústico, que na verdade a gente mistura nos shows eletro-acústico e violões. Acho que a gente tem ainda bastante coisa para conquistar. O Acústico surgiu de um acordo com a gravadora Sony, pela qual a gente lançou o CD O Retorno de Saturno. O mercado pedia um trabalho acústico, mas, a princípio, a gente recusou por achar que o repertório ainda era muito curto. Mas enfim lançamos e DVD e a aceitação está sendo muito boa. Esse trabalho fez com que o Detonautas disputasse o espaço com os artistas mais novos. A gente provou ter uma certa regularidade em shows e álbuns e isso é uma vitória.
Alternativa: Na sua opinião, como está o cenário musical no Brasil?
Tico: No rock brasileiro, a gente observa uma certa infantilização dos temas e das abordagens. Eu respeito todos os artistas e cada um deve desenvolver sua melhor maneira de fazer música e de realizar seus sonhos. Mas eu, particularmente, não me identifico com isso e não é uma música que eu escuto. Torço para que isso passe logo e espero que a gente possa trazer de volta os valores que o rock transmite, como o questionamento e ao mesmo tempo a poesia. Falar de amor, mas de uma forma mais poética. O que se vê hoje é o comércio, a corrida pela fama e pelo glamour, sem um comprometimento com o espírito do rock.
Alternativa: O que você quer dizer com infantilização?
Tico: Os artistas se comportam como se não tivessem nenhum tipo de opinião e estão sempre em cima do muro. Sempre preocupados em dar sorrisos e posar para fotos, ao invés de tratar de assuntos que sejam importantes. O papel do artista é mais do que somente dar autógrafos ou sorrir para fotos.
Alternativa: Como você se inspira para compor as letras das músicas?
Tico: Além das minhas experiências de vida a leitura é fundamental para ter um vocabulário mais abrangente para tirar as ideias da cabeça e colocar em um papel através das palavras. Leio de tudo e sou compulsivo em relação a isso. Tenho uma biblioteca em casa e acho que é a maior riqueza que eu posso deixar aos meus filhos. Prefiro ler ao invés de ficar assistindo televisão. Eu trouxe nesse viagem três livros, sendo um do Carlos Amorim que fala sobre violência e política no Brasil. São assuntos que me interessam muito.




