Tóquio – Os defensores da mudança da tradição secular do Japão de iniciar o ano letivo em abril, aproveitam o fechamento escolar causado pelo coronavírus como uma chance para realizar reformas que, segundo eles, irão internacionalizar a educação do país.
Proposta para o início de setembro, de acordo com muitos países ocidentais, a mudança tem implicações enormes para o recrutamento. A maioria das empresas contrata em massa depois que os estudantes se formam em abril, quando também começa o exercício financeiro.
“É uma oportunidade de ouro”, afirma Kunihiko Miyake, diretor de pesquisa do Instituto Canon para Estudos Globais. “Isso mudaria drasticamente a mentalidade, a educação e o recrutamento das pessoas e tornaria a sociedade mais flexível para que possamos sobreviver”, acrescentou.
As preocupações com um ano acadêmico truncado após o fechamento das escolas em março por causa do surto de coronavírus desencadearam um debate sobre a mudança, que ganhou apoio de alguns políticos de destaque, como a governadora de Tóquio, Yuriko Koike.
A ideia existe há décadas. Uma proposta de 2011 do presidente da Universidade de Tóquio não ganhou força, apesar do apoio da Keidanren.
Mas agora as pesquisas mostram que muitos eleitores e a maioria dos governadores regionais são a favor, embora a maioria dos governadores se oponha a uma mudança este ano.
O Partido Liberal Democrático (LDP) do primeiro-ministro Shinzo Abe, criou um grupo de trabalho para fazer recomendações no próximo mês. “Estou ansioso para mudar a situação de maneira global. É uma grande chance, mas temos que avançar passo a passo”, disse Masahiko Shibayama, ex-ministro da Educação que lidera o grupo de trabalho, à Reuters.
Mas introduzir a mudança este ano, no entanto, seria um exagero, disse ele.
Os defensores da reforma dizem que o início de setembro facilitaria a entrada de estudantes estrangeiros no Japão e japoneses no exterior.
O número de estudantes universitários japoneses estudando no exterior atingiu o pico em 2004, antes de entrar em declínio. Os esforços do governo aumentaram os números de estudos no exterior, mas para a maioria deles é apenas para uma estadia de curto prazo, geralmente de um mês ou menos.
Isso ocorre, principalmente, porque a maioria das empresas japonesas contratam novos graduados em abril. Os estudantes que vão para o exterior temem perder a chance de se candidatar a empregos.
“Soldados corporativos”
Em resposta a escassez de mão-de-obra e competição por trabalhadores com habilidades de alta tecnologia, algumas empresas maiores já se tornaram mais flexíveis. No entanto, empresas menores, que empregam cerca de 70% da força de trabalho do Japão, acham difícil lidar com isso.
“As principais empresas não terão problemas”, disse à Reuters o presidente da Universidade de Waseda, Aiji Tanaka. “Mas as empresas menores não podem se ajustar ao recrutamento ao longo do ano imediatamente, então teremos que transformar a estrutura industrial, todo o sistema social japonês, para nos adaptarmos a um padrão global.”
Tanaka explicou ainda que outras mudanças também são necessárias para promover estudos no exterior e atrair estudantes estrangeiros, como mais cursos em inglês, chamando o foco de um começo de setembro de “ingênuo”.
As empresas também teriam que se tornar mais acolhedoras com novas contratações com experiência no exterior, disseram os educadores.
“Existe muito elogio à globalização pela indústria japonesa, mas, em geral, a expectativa das universidades japonesas é fornecer soldados corporativos”, disse Andrew Horvat, professor visitante da Universidade Internacional Josai.
A mudança está longe de ser um acordo.
Os críticos dizem que os esforços devem se concentrar agora em ajudar as crianças a acompanhar o aprendizado on-line e outras etapas, e não um novo calendário.
Alguns também se preocupam em romper com a tradição. “Eu sou a favor da reforma”, disse Shibayama, do PDL. “Mas não é apenas uma mudança social ou de negócios, pode ser uma grande mudança na tradição ou cultura japonesa e minha hesitação está aí – as flores de cerejeira são o símbolo de um novo começo.”
Foto: Kim Kyung-Hoon/Reuters
Estudantes universitários em comício organizado para aumentar a moral antes de procurar emprego em Tóquio




