Tóquio – Um jornalista japonês freelancer de 44 anos voltou para casa na quinta-feira e comeu “onigiri” (bolinho de arroz) preparado por sua mãe, mas um futuro incerto o aguarda depois de passar três anos como refém de militantes na Síria, onde viveu “um inferno físico e mental”.
Jumpei Yasuda, que deixou seu emprego como repórter em um jornal japonês para cobrir a guerra do Iraque em 2003, chegou a Tóquio em um voo vindo da Turquia, reacendendo o debate no Japão sobre reportagens de zonas de guerra que alguns veem como aventureirismo imprudente e outros como jornalismo corajoso.
Imagens de televisão mostraram Yasuda, de aparência magra, descendo as escadas do avião e entrando em um carro que o esperava no aeroporto internacional de Narita (Chiba).
Mais tarde, a esposa do jornalista, uma cantora conhecida como Myu, se curvou profundamente e se desculpou em uma coletiva de imprensa lotada na qual Yasuda não apareceu.
“Ele gostaria de pedir desculpas por causar confusão e fazer as pessoas se preocuparem. Felizmente ele retornou com segurança ao Japão”, disse a esposa enquanto lágrimas escorriam em seu rosto.
“Ele sente que tem a responsabilidade de explicar os fatos o quanto antes possível”, acrescentou a mulher, mas disse que o marido precisa passar por exames médicos primeiro.
Yasuda deu poucos detalhes sobre seu cativeiro, mas disse a seus pais, que também estavam no aeroporto, que temia que eles não estivessem vivos. “Ele também disse que quer tomar um banho quente e depois dormir em um futon”, contou a esposa.
Yasuda viajou para o Iraque no final de 2002 usando licença remunerada do jornal onde trabalhava. Ele ficou frustrado quando seu chefe se recusou a mandá-lo para lá de volta e deixou o emprego em 2003. No ano seguinte, em outra viagem ao Iraque, ele foi capturado perto de Bagdá por militantes e solto três dias depois.
Em um livro que o jornalista publicou no mesmo ano, ele explicou que havia assumido a tarefa porque queria mostrar o sofrimento causado pela guerra.
“Eu não conseguia ver rostos de pessoas que moravam no país e que faziam parte de um ‘eixo do mal’ a partir de qualquer informação fornecida pela mídia japonesa, que apenas relatava assuntos diplomáticos e inspeções das Nações Unidas”, escreveu ele.
Yasuda retornou ao Iraque em 2007 para trabalhar como cozinheiro em um campo de treinamento do exército iraquiano e em 2010 publicou um livro no Japão sobre trabalhadores da zona de guerra.
Sua última viagem à região foi em 2015. Além de alguns breves vídeos divulgados por militantes, pouco se sabe sobre o que aconteceu com ele depois que foi sequestrado. Outros japoneses capturados na região foram mortos.
Em 2015, o veterano correspondente de guerra japonês Kenji Goto e um amigo que ele tentou libertar, Haruna Yukawa, foram decapitados por militantes do Estado Islâmico. Ambos foram criticados no Japão por sua decisão de viajar para o Iraque.
Antes mesmo de Yasuda retornar ao Japão, muitas pessoas fizeram críticas nas redes sociais.
“Depois que ele voltar, quero que faça uma coletiva de imprensa para pedir desculpas e trabalhar para pagar o resgate. Eu não preciso ouvir a opinião dele”, disse uma pessoa no Twitter
O governo japonês negou o pagamento de qualquer resgate pela libertação de Yasuda.
A esposa de Yasuda disse que ele precisa de tempo para se recuperar, e o próprio jornalista disse à Reuters a caminho de Istambul que seu futuro era incerto.
“Estou feliz por poder voltar ao Japão. Ao mesmo tempo, eu não sei o que vai acontecer daqui em diante ou o que devo fazer”, disse ele.
Foto: Reuters
Jumpei Yasuda com a esposa e os pais após retornar ao Japão




