Tóquio – Entre as doenças associadas ao envelhecimento, a demência é a que mais preocupa o governo e as famílias do Japão. Com o aumento da longevidade e do número de idosos com mais de 65 anos — nascidos no chamado “baby bom” pós-guerra — uma “epidemia” de demência é esperada para ocorrer no país nos próximos anos, colocando pressão sobre as famílias e sobre o governo.
Estima-se que 5 milhões de pessoas no país, ou quase 5% da população, sofram de perda progressiva da memória e capacidade cognitiva. Até 2025, esse número pode dobrar, de acordo com as projeções mais pessimistas. Em casos mais graves, os pacientes perdem a identidade social, tornando-se totalmente dependentes dos cuidados de terceiros.
O livro intitulado “Mudanças Demográficas e a Família na Sociedade Envelhecida do Japão”, publicado em 2004, questiona o fato de que tão pouco foi feito para se preparar para o que era, afinal, uma tempestade totalmente previsível: o rápido envelhecimento de uma nação que avançou na longevidade, mas que contribuiu para que os casais tivessem menos filhos.
Os problemas que serão gerados pela epidemia de demência já podem ser observados hoje. Em Miyazaki, em outubro passado, um homem de 73 anos, posteriormente diagnosticado com demência, jogou seu carro contra uma calçada, matando dois pedestres e ferindo cinco. Em Sendai (Miyagi), em março, um homem de 78 anos esfaqueou sua enfermeira de 60 anos porque ela teria “lacrado seu almoço com filme plástico”.
Em 2014, a Agência Nacional de Polícia recebeu 10.783 notificações de desaparecimento de pessoas com demência. A maioria é encontrada vagando pelas ruas, sem lembranças do que as teria levado até lá. Com o número de pacientes previsto para dobrar em 10 anos, os vagantes se tornarão um problema grave para as famílias e, principalmente, para a polícia.
A solução poderia estar nas instituições médicas que abrigam idosos doentes, mas um levantamento feito no ano passado revelou que, para suprir a demanda da próxima década, o número de leitos em hospitais geriátricos teria que quadruplicar na área metropolitana de Tóquio. Esta previsão está sendo a principal justificativa do governo central para criar políticas que incentivam idosos a deixar a capital para viver seus últimos dias em “comunidades” rurais no interior do país.
A escassez de trabalhadores na área de geriatria também preocupa, principalmente com a queda pelo interesse dos mais jovens pela enfermaria. A média salarial do setor é de ¥210 mil por mês, cerca de ¥100 mil a menos do que a média de outras áreas com custo e tempo de formação semelhantes.
Embora haja uma pressão para que o governo se torne o principal tutor de pacientes com esse tipo de doença, o autor do livro afirma que a responsabilidade é das famílias. Uma pesquisa realizada pelo governo, divulgada no dia 6 de maio, revelou que mais de 250 mil japoneses — mulheres em sua grande maioria — estão envolvidos em “cuidado duplo” de crianças e idosos. Muitos dos entrevistados disseram que tiveram que deixar seus empregos regulares para se dedicar inteiramente aos seus pais e avós.
Foto: Reuters
Idoso mostra aviso: “Tenho demência e vou precisar de sua ajuda”




